Ajuda psiquiátrica, com a doutora Valéria Avilla

A ajuda psiquiátrica envolve uma série de questões que esbarram no preconceito. A pouca aceitação da doença, adia a busca de uma ajuda médica e na disciplina do tratamento. Esse caminho nem sempre é fácil de ser trilhado e, muitas vezes, o paciente e os familiares passam por verdadeiras provações que poderiam ser evitadas.

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Dra. Valéria Avilla – Psiquiatra, Psicanalista e Escritora – CRM – GO 6174

Ajuda psiquiátrica: Bula e modo de usar 

É preciso fazer uma leitura mais abrangente do que a medicina e as terapias podem fazer pelas doenças mentais. Há ainda, muita perda de tempo de pacientes que poderiam ter uma vida com maior qualidade de vida, se procurassem por uma ajuda psiquiátrica. O preconceito e a falta de informação promovem sofrimento desnecessário. Nossa consultora, a Psiquiatra Valéria Avilla nos fala com simplicidade dos problemas psiquiátricos e de como eles devem ser enfrentados:

Aurélia Guilherme – Por que ainda hoje, doenças psiquiátricas, como Depressão, Transtornos de Ansiedade e várias outras são vistas como loucura, preguiça ou manha?

Dra. Valéria Avilla – Há 25 anos, quando me formei em psiquiatria, o estigma da doença mental ainda era muito presente. Hoje, percebo que muitas pessoas já não têm receio de falar que sofrem de um transtorno. A maioria dos meus pacientes são encaminhados por outros pacientes.

 Agora, a doença mental é a mais abstrata das doenças. Não aparece em exames laboratoriais, e é de difícil comprovação para outros médicos. Apesar de haver muita informação, algumas pessoas ainda veem a ansiedade ou depressão como uma fraqueza de caráter. Eu ensino aos meus pacientes que esse transtorno, na verdade, é um presente. Um alarme que nos mostra que estamos insatisfeitos e infelizes por tempo demais e, por isso, adoecemos.

ajuda psiquiatrica Goiânia Aurélia Guilherme – Fazer um tratamento psiquiátrico significa estar dependente de medicamentos e estar sempre dopado?

Dra. Valéria Avilla – Não mesmo. Desde os anos 90 contamos com um arsenal terapêutico de medicação para essa área com um perfil de efeitos colaterais, cada vez mais tranquilo.

Grandes pesquisas como metánalises, que são trabalhos revistos com pesquisas mundiais e com alto número de pacientes, nos revelam que, quem está dependente de medicação não está sendo seguido por psiquiatras; talvez, sejam pessoas que estejam solicitando remédios a outros especialistas, ou seja, são medicamentos utilizados sem seguimento algum.

Além do mais, é consenso entre os psiquiatras, trabalhar por curto período com medicações que possuem risco de dependência. A maioria das medicações que trata as doenças psíquicas, não tem risco de dependência em longo prazo, como é o caso dos medicamentos de tarja vermelha.

Aurélia Guilherme – A maioria das pessoas acha que sempre é possível manter o controle da emoção. Porém, sabemos que nem todas as pessoas conseguem esse feito. O que faz uma pessoa perder o seu controle emocional e quando isso passa a ser preocupante?

Dra. Valéria Avilla – Na verdade, muitas pessoas sofrem, exatamente, porquê tentam manter o controle das emoções, são os obsessivos. Manter o controle emocional não é mesmo, sinal de saúde mental. Assumir, entender e se responsabilizar pelos seus desejos e atos e, assim, pelas suas emoções, sim, é saudável. O que faz uma pessoa ser impulsiva e inconsequente é exatamente não saber lidar com suas emoções, mas não no sentido de controlar. O controle é como uma represa prestes a estourar. O bom é deixar a água correr sabendo canalizar o curso.

Aurélia Guilherme – Na psiquiatria, sempre será necessário o uso de medicamentos?

Dra. Valéria Avilla – A psiquiatra é uma especialidade médica como qualquer outra. Penso que acolher, orientar, tranquilizar fazer o paciente pensar, sugerir novos caminhos e educar também fazem fazer parte do que é terapêutico. Infelizmente, com atendimentos rápidos de convênios que não valorizam o tempo de uma consulta está se tornando impossível usar tais instrumentos e, alguns especialistas passam a prescrever medicamentos, a cada dia com maior frequência – sempre é mais rápido. Porém, é bom salientar que, mesmo com essas dificuldades, essa não é a prática de todos os médicos.

Alguns psiquiatras são psicoterapeutas também, e não usam a medicação em todos as situações. A associação de remédios e terapia evita a manutenção crônica da medicação em muitos casos em que isso seria realmente necessário manter sem a psicoterapia – assim como melhora o intervalo entre episódios depressivos e evita a recaída, por exemplo.

Aurélia Guilherme – O que diferencia a psiquiatria da psicanálise?

Dra. Valéria Avilla – Quanto à origem, a psiquiatria é uma especialidade da formação médica. A psicanálise é independente: um médico ou outro profissional pode fazer essa formação.

Quanto à função, são dois jardineiros. Pense num jardim. É como se a psiquiatria cuidasse do terreno, o adubando com ingredientes que faltam para a planta sobreviver e a psicanálise fazendo a poda que é necessária para a planta crescer viçosa. A psiquiatria tira o paciente da doença – mantém a planta viva, a psicanálise a faz florescer e dar frutos – faz do sujeito, alguém realizado com a vida.

Não penso que sobreviver seja mais importante do que ser feliz, pois adoecemos quando estamos cronicamente infelizes – mas obviamente é impossível ser feliz se você não está vivo. Gosto de exercer as duas ciências. O trabalho simultâneo é uma dupla e tanto! Uma dupla dinâmica, literalmente.

quando procurar ajuda psiquiátrica Aurélia Guilherme – A resistência das pessoas em um tratamento psiquiátrico pode agravar um problema, com maior sofrimento para paciente e familiares. Qual é a hora de procurar ajuda? Como reconhecer esse momento?

Dra. Valéria Avilla – Sim, tudo que poderia ser temporário pode se tornar definitivo e letal se não cuidarmos a tempo. Mas, ainda é comum ser longo o tempo entre o inicio do sofrimento e a procura de auxílio profissional. Costumo dizer que quando o paciente piora logo, é bem melhor para ele. Telhado morno não faz o gato pular . Alguém que cozinha em banho-maria o sofrimento, perde muito tempo da curta vida, num viver muito aquém do ideal e, no mínimo, bastante insatisfatório.

“Não é que não possamos estar insatisfeitos e infelizes em alguns momentos, mas se isso é uma constante ou traz prejuízos pelo distanciamento das metas ou pela perda de qualidade de vida, não espere mais. Cuide-se! Procurar ajuda não é uma sentença e, sim, uma capacidade de se gerir usando elementos externos à você. Apenas isso!”

Aurélia Guilherme –  Há quem não leve muito à sério, uma prescrição de remédios psiquiátricos. Interromper um tratamento medicamentoso por conta própria pode ter que tipo de consequência?

Dra. Valéria Avilla – Sim, pois toda medicação e diagnóstico indicam o tempo correto para ser usado. Infelizmente, descontinuar a medicação por conta própria é um ato comum entre pacientes. Depois que melhoram muitos querem testar se foi mesmo a medicação que o melhorou ou foi uma coincidência. O resultado é a queda abrupta na concentração sanguínea da medicação e efeitos similares a doença como humor depressivo e ansiedade, assim como sintomas clínicos diversos: tonteira, náuseas e outros.

A boa notícia é que essa aventura é para a maioria uma experiência única – desistem logo de tentar novamente e aprendem que testes dessa natureza não valem à pena.

Aurélia Guilherme – O tratamento psiquiátrico deve ser acompanhado de um tratamento psicoterapêutico?

Dra. Valéria Avilla – Gostaria muito que fosse sempre assim – sou fã dessa dupla, como já disse. Porém, a psicoterapia depende do desejo do paciente e de seu investimento para acontecer um laço que se desenrole num trabalho afetivo. É necessário que o analisando queira conhecer a prática, tenha curiosidade para se reconhecer e arriscar-se nessa aventura maravilhosa –  a viagem de se superar e assumir quem se é. Fazer de sua vergonha seu maior orgulho.

 

 

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