Alergia Alimentar, com a Alergista Lorena Diniz

É cada vez mais comum casos de pessoas alérgicas a alimentos, especialmente leite, ovos e trigos. Quem não sabe que é alérgico à determinada proteína alimentar, e consome o causador de sua alergia, pode apresentar, desde sintomas simples, como cólicas e distensão abdominal, até um choque anafilático, reação grave que pode levar à morte. Boa Vida traz uma entrevista esclarecedora sobre o assunto com a Dra. Lorena Diniz, especialista em Alergia e Imunologia pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) e diretora secretária da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia, Regional Goiás.

Boa Vida Online – Qual a diferença entre intolerância alimentar e alergia alimentar?

Alergista e Imunologista Dra. Lorena Diniz, CRM-GO 10999 / RQE-6163

Dra. Lorena Diniz – Intolerância alimentar é a falta de enzima digestiva. O organismo não produz ou tem uma deficiência da quantidade de enzimas para digerir um certo carboidrato. O carboidrato do leite, por exemplo, é a lactose. Então, o organismo não tem lactase suficiente, ou a tem em quantidade zero, para digerir essa lactose em moléculas de glicose. Já a alergia alimentar é uma reação imunológica do organismo. O organismo produz anticorpos ou células contra a proteína daquele alimento.

Boa Vida Online – Quais são os sintomas da alergia alimentar? Ela é mais grave?

Dra. Lorena Diniz – Os sintomas da alergia alimentar podem variar desde sintomas de pele, como urticária, dermatite atópica (inflamação cutânea, coceira), angioedema (inchaço nas camadas mais profundas da pele); até sintomas gastrointestinais, como cólica, distensão abdominal, diarreia, sangue nas fezes, dor abdominal. E temos as reações mais graves, mais temidas, que são as reações anafiláticas.

Boa Vida Online – Uma pessoa com intolerância alimentar a determinado alimento, mas que gosta daquele alimento, pode “conviver” com essa intolerância? Pode consumir tal alimento?

Dra. Lorena Diniz – A pessoa com intolerância alimentar, por exemplo, à lactose, pode consumir alimentos, conviver com intolerância, pois hoje há enzimas sintéticas substitutas da lactase. Então, antes de ingerir um alimento que contenha a lactose, ela pode ingerir essa enzima artificial, para quebrar a molécula desse açúcar em glicose e não apresentar os sintomas. Mas ainda não existem enzimas sintéticas para todas as intolerâncias.

Há alguns alimentos que já são feitos com ausência desses carboidratos, como, por exemplo, leite zero lactose, iogurte zero lactose, queijo zero lactose. Esses alimentos já ficam isentos e a pessoa já consegue consumi-los, sem prejuízo.

Já com relação à intolerância à frutose, vale lembrar que algumas frutas têm menor teor de frutose, basta consumi-las em substituição àquelas que têm alto teor de frutose. Isso também vale para os legumes e verduras.

Boa Vida Online – Está terminantemente proibido o consumo de alimentos que provocam alergia?

Dra. Lorena Diniz – Sim, quando a pessoa é alérgica à proteína de algum alimento, realmente ela não pode consumi-lo, porque não depende da quantidade daquilo que provoca alergia. Qualquer quantidade é suficiente para que o sintoma se manifeste.

Tipos mais comuns de alimentos causadores de alergias

Boa Vida Online – Como é feito o diagnóstico de alergia alimentar? Há exames, além do exame clínico?

Dra. Lorena Diniz – O diagnóstico de alergia alimentar começa por um diagnóstico clínico. A criança ou o adulto vai apresentar sinais e sintomas que vão sugerir aquela alergia. Dependendo da faixa etária, consegue-se, através de exames, detectar e comprovar essas alergias. Em certas idades ou em alguns tipos de alergia, consegue-se fechar o diagnóstico através da alternância do consumo, ora de restrição ao alimento, ora de consumo. Esse é o melhor teste para diagnosticar uma alergia alimentar, chama-se provocação oral.

Também existem testes alérgicos para alguns alimentos. Porém, um teste alérgico positivo não quer dizer que aquela pessoa é alérgica ao alimento. O teste apenas indica que a pessoa é mais sensível a determinado alimento. Então, é o diagnóstico clínico, junto ao diagnóstico laboratorial e o teste alérgico, que irão fechar o diagnóstico. O teste alérgico isolado não é conclusivo.

Boa Vida Online – Quais são os tipos de alergias alimentares mais comuns?

Dra. Lorena Diniz – As alergias alimentares mais comuns são leite, ovo, trigo, soja, castanhas e frutos do mar.

Boa Vida Online – Uma alergia alimentar pode prejudicar a qualidade de vida da pessoa, prejudicando a qualidade do sono, causando mal-estar, mesmo sem ela saber que é alérgica?

Dra. Lorena Diniz – Sim, uma alergia alimentar pode prejudicar a qualidade de vida de uma pessoa. Ela pode ter sintomas gastrointestinais, como cólica, diarreia, sangramento nas fezes, uma piora no refluxo. Então, isso altera o sono, porque ela fica com o abdômen distendido, dificultando o sono. Há ainda as dores de estômago, por conta da piora do refluxo. Esses podem ser sintomas de alergia alimentar.

Boa Vida Online – As pessoas já nascem com alergia a determinado alimento ou podem desenvolver essa alergia durante a vida? A alergia tem um fator genético?

Dra. Lorena Diniz – Como toda alergia, a que é de origem alimentar tem fator genético predisponente. Por exemplo, se o pai ou a mãe tem algum tipo de alergia, o filho deste casal pode ser alérgico, e mesmo, ser um alérgico alimentar. Mas, a criança ou adulto, só vai desenvolver tal alergia, dependendo de fatores ambientais, como exposição àquele alimento, em que época houve a exposição e qual foi a exposição do alérgico ao alimento. Esses são fatores ambientais, que vão interferir na possibilidade de a pessoa desenvolver ou não alergia alimentar.

Nós, aqui no Centro-Oeste, por exemplo, temos uma tendência maior a desenvolver alergia ao camarão, porque ingerimos esse alimento com menos frequência do que uma pessoa que mora no litoral. Essa lacuna da ingestão de camarão, de hoje para daqui 15 dias, faz com que o organismo, devido à predisposição natural, possa desenvolver anticorpos contra aquela proteína do camarão. Assim, um belo dia, essa pessoa pode apresentar reação alérgica ao camarão. A pessoa não precisa nascer com a alergia, ela pode desenvolver, mas apenas se tiver predisposição genética eminente.

Boa Vida Online – As pessoas atualmente estão mais alérgicas aos alimentos? Tem aumentado o número dessas alergias? Por que?

Dra. Lorena Diniz – A alergia alimentar tem aumentado sua incidência, sim, com certeza. Porém, nós, alergistas, não sabemos ao certo as razões disso. Uma das teorias que tem se postulado, refere-se ao tratamento dos alimentos que nós ingerimos, com antibió

ticos. Isso estaria alterando a nossa flora gastro-intestinal, e nos levando às alergias alimentares e às intolerâncias mais frequentes.

Boa Vida Online – O que fazer quando a pessoa tem uma crise alérgica?

Dra. Lorena Diniz – Se uma pessoa já sabe que é alérgica, que tem alguma alergia importante a um certo alimento, ela deve ter sempre por perto, adrenalina auto-injetável. Porque nos primeiros sintomas de reação anafilática, a adrenalina é o principal medicamento a ser administrado e deve ser feito o quanto antes, para afastar o risco de morte. A reação a alimentos é extremamente grave. A reação mais temida é a reação anafilática, em que pode haver um choque cardio-vascular, levando a pessoa a um possível óbito, se não for tratada imediatamente. Quando há uma reação anafilática, a adrenalina é a única medicação capaz de salvar a vida de um paciente.

Agora, se for algum outro sintoma gastrointestinal, ou de pele, às vezes a gente usa um antialérgico ou um sintomático, remédio para cólica, remédio para flora bacteriana, vai depender de cada sintoma. E, claro, evitar o alimento suspeito.

Boa Vida Online – Como observar se os bebês ou mesmo crianças têm algum tipo de alergia alimentar?

Dra. Lorena Diniz – Observamos se adultos ou bebês podem ter algum tipo de alergia alimentar, quando eles começam a apresentar algum sintoma relacionado à ingestão daquele alimento.

No caso de bebês, geralmente a gente pede para as mães fazerem um diário alimentar para sabermos se aquele sintoma que o bebê está apresentando é de uma alergia alimentar ou uma intolerância. Nos bebês a gente observa, principalmente, cólica, refluxo, inquietude noturna, dor, uma cólica mais exacerbada no recém-nascido, sangramento nas fezes, uma distensão abdominal, urticária, inchaço. Esses são os sintomas mais comuns no bebê.

No adulto, geralmente, observamos sinais como urticária, edemas, cólicas, diarreias e indisposição. Estes são alguns dos sintomas que nos faz desconfiar da alergia alimentar, além dos sintomas de pele e respiratórios.

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