Alzheimer, com o Geriatra Marco Aurélio Borges

Boa Vida Online | AlzheimerA longevidade é uma realidade no mundo. A cada nova década, a medicina nos presenteia com o tempo de vida, que se prolonga para os 90, 100 e, em breve, até mais do que isso. Mas, se podemos viver mais, nos deparamos com os limites da ciência que, para algumas doenças, ainda não tem solução. É o caso do Alzheimer, uma doença que que se manifesta em 35,6 milhões de pessoas, em todo o mundo. Infelizmente, na mesma medida em que aumenta a população acima dos 65 anos, esse tipo de demência, a mais comum entre todos os tipos, também cresce, de forma vertiginosa. Mais de 1 milhão e 200 mil brasileiros têm a doença. O Geriatra Marco Aurélio Borges convive na sua rotina de consultório, com pacientes portadores desse tipo de demência irreversível.

Dr. Marco Aurélio Borges | Geriatra

Dr. Marco Aurélio Borges, Geriatra, CRM – GO 11.542

Boa Vida Online – Como se conceitua o Alzheimer?

Dr. Marco Aurélio Borges – A Doença de Alzheimer é uma patologia neuro-degenerativa de curso longo, progressivo e irreversível. Uma desordem que apresenta-se com um deficit cognitivo e comportamental associado ao comprometimento da vida social e das atividades funcionais da vida diária. Sua principal característica é a perda de memória progressiva associada à perda da autonomia (capacidade de decisão) e da independência (capacidade de execução).

A incidência da doença na população idosa, praticamente dobra a cada 20 anos. A previsão é de que o número de doentes de Alzheimer chegue a 65,7 milhões em 2030 e a 115,4 milhões em 2050. Atualmente, 58% da população com Alzheimer encontram-se nos países desenvolvidos; percentual que atingirá os 72% em 2050. A Doença de Alzheimer é a causa mais comum, e irreversível, de demência. Existem outros tipos de demência, com potencial de reversão completa, se diagnosticado precocemente.

Boa Vida Online – Mas, não é o caso do Alzheimer, não é? Principalmente, em razão do diagnóstico, quando é feito, a doença já se encontra em estágio avançado. O senhor concorda?

Dr. Marco Aurélio Borges – Sim, pacientes em fase pré clinica da doença, podem parecer completamente normais ao exame físico e nos testes que realizamos para avaliar a função cognitiva e o estado mental. Porém, regiões específicas do cérebro, já podem ter sido afetadas, em cerca de 10 ou 20 anos antes que qualquer sintoma fosse percebido. Muitas vezes, o diagnóstico se faz de forma tardia, por acreditarmos que algumas alterações sejam “normais” com o envelhecimento. Dizemos “isso é comum da idade”, ou “ela não consegue, por causa de sua idade”.

A idade, por si só, não é motivo para alguém perder a sua autonomia ou a sua independência. Por exemplo, quando um idoso não consegue planejar uma viajem e executa-la sem auxílio, ou, quando não consegue mais ir ao banco pagar as suas contas, ou mesmo, ir ao mercado para fazer compras, não podemos aceitar que isso seja normal. Temos que levar em consideração todo esse processo, desde o planejamento, até a execução da tarefa e, se há necessidade de auxílio, em algum, desses momentos.

Desse modo, muitas pessoas procuram ajuda, quando essas situações já estão evidentes; apenas, quando algo errado, já está acontecendo, como ficar perdido em casa ou necessitar de ajuda para se vestir. Geralmente, esses são sinais de que de um estágio mais avançado da doença.

Boa Vida Online – Exames de imagem conseguem visualizar a degeneração cerebral?

Dr. Marco Aurélio Borges – Alguns exames de imagem conseguem visualizar a degeneração cerebral, mas isso não é o suficiente para diagnosticar a doença. É necessário ter um comprometimento cognitivo e funcional, associado ao exame de imagem.

É importante ter em mente que, o diagnóstico da Doença de Alzheimer é clinico e, feito por exclusão. A doença se confirma, após excluídas todas as outras causas de demência, associadas aos testes neuro-psicológicos. Assim, fazemos o diagnostico de provável Doença de Alzheimer. Infelizmente, a Doença de Alzheimer não é diagnosticada com tomografia ou ressonância magnética!

Sinais de AlzheimerBoa Vida Online – O que fazer com essa doença?

Dr. Marco Aurélio Borges – Em se tratando de uma doença irreversível, temos que CUIDAR da pessoa doente. Infelizmente, as medicações que temos hoje em dia, não estabilizam ou revertem o quadro demencial. Elas ajudam no controle comportamental e, isso pode dar a impressão de estabilização ou reversão da doença. Mas, não existe medicação para prevenir Alzheimer. Porém, sempre podemos cuidar dessas pessoas. O fato de não ter tratamento curativo, não exclui o tratamento paliativo, em que, a sua essência é cuidar da pessoa. O centro do nosso tratamento não será a doença, que está fora da possibilidade de cura, mas sim, o doente, a pessoa. Os indicativos são perda progressiva de memória, com comprometimento das atividades do dia a dia, com a perda da autonomia e da independência.

Não podemos aceitar como “normal”, se alguém não consegue fazer algo que sempre fez durante sua vida. Então se, por exemplo, a pessoa sempre fez a compra no supermercado e, de repente ela não consegue planejar, saber o que precisa comprar, fazer o pagamento corretamente, guardar os produtos nos locais corretos e utiliza-los corretamente…esses são sinais de alerta!

Ou, a pessoa sempre visitou um amigo, sabe onde ele mora, pega sempre o mesmo ônibus e o mesmo caminho e, de repente não consegue mais visita-lo, porque fica perdido, pega o ônibus errado e não consegue achar a casa do amigo… essas atitudes, associadas aos esquecimentos, não podem ser consideradas “normais”.

Boa Vida Online – Muitas vezes, essa doença é comparada à loucura. Qual a sua opinião sobre isso?

Dr. Marco Aurélio Borges – Em muitos casos, essas pessoas apresentam alterações de comportamento, como agressividade e/ou alucinações…Tudo faz parte da Doença de Alzheimer e, cada pessoa vai se apresentar de forma diferente da outra.

Digo sempre para os familiares, da importância de todos, que entram em contato com o doente, precisarem saber do diagnóstico, da evolução da doença e do seu prognóstico. Justamente para evitar certos comentários e atitudes desagradáveis.

A pessoa com Doença de Alzheimer não muda seu comportamento por vontade própria. Muitas vezes, aqueles que sempre foram calmos podem ficar extremamente agressivos ou o contrário disso. É imprevisível. Mas para esse tipo de comportamento, temos medicações para controlar e melhorar a qualidade de vida do doente e dos familiares.

Boa Vida Online – Essa doença pode se manifestar em pessoas jovens?

Dr. Marco Aurélio Borges – A forma familiar da Doença de Alzheimer, pode sim, se manifestar em pessoas mais jovens, entre 35 e 65 anos. Quando a doença acontece em paciente mais jovens, geralmente tem uma característica mais agressiva dos sintomas e da evolução.

Boa Vida Online – Por que uma pessoa desenvolve a doença?

Dr. Marco Aurélio Borges – Podem acontecer alterações genéticas que favoreçam o surgimento da doença/demência. Porém, nem todas essas pessoas que apresentam essas alterações, vão desenvolver a doença. Acredita -se que, o fator ambiental e comportamental, exerça certa influência também. Por isso, um estilo de vida mais saudável, com dieta balanceada e atividades física regulares, são essenciais, também, na prevenção da Doença de Alzheimer.

Dr. Marco Aurélio Borges e dona Dagmar Teixeira França

Quem convive com idosos, sabe bem que é preciso entrar no mundo deles. Muitas vezes, é difícil sair do ritmo da rotina diária e, corresponder ao que eles precisam. Mas, o doutor Marco Aurélio faz isso com grande facilidade. Seus pacientes se encantam com seu jeito doce e sereno. Prova disso, é que, já há algum tempo, dona Dagmar Teixeira França faz seu tratamento geriátrico para manter sua saúde por toda vida. Ao final de sua última consulta, em um gesto simples e correspondido, essa simpática senhorinha estendeu suas mãos sobre a mesa e, rezou pelo doutor Marco Aurélio, por sua família e, por seu trabalho. Pego de surpresa, ele foi tomado de emoção e, percebeu naquele dia que, Deus manda seus recados, quando menos esperamos e mais precisamos. Antes de dona Dagmar sair, o doutor Marco Aurélio a agradeceu por ela deixar que ele seja seu médico!

Boa Vida Online – Há como conter o avanço da degeneração das funções cognitivas (memória, orientação, linguagem, atenção)?

Dr. Marco Aurélio Borges – Infelizmente não existe cura, estabilização ou desaceleração na progressão da doença. Por definição, esta é uma doença neuro-degenerativa progressiva e irreversível. Mas não significa que não tenha tratamento! O principal tratamento é o paliativo, voltado para uma melhor qualidade de vida e proteção contra um sofrimento inevitável. Nunca dizemos que não há nada a ser feito! Pode-se não ter o que fazer, com relação à cura da doença, mas há muito o que se fazer para o paciente.

Boa Vida Online – Há como prevenir a doença?

Dr. Marco Aurélio Borges – As medidas preventivas diminuem a probabilidade de acontecer uma determinada doença, mas não impedem o seu surgimento. Além da dieta balanceada e da atividade física regular, temos que exercitar o nosso cérebro, sempre fazendo coisas novas, aprender algo novo. Nesse sentido, não adianta fazer o que já se sabe. Esse é o segredo. Não ficar parado. Coloque o cérebro para funcionar de várias formas. Jogos de memória, caça palavras, entre outros, são muito úteis, mas são atividades que ativam, apenas uma parte do cérebro. Precisamos ativar “todas” as áreas do cérebro.

Procure sempre algo novo e diferente. Uma nova rota para ir ao trabalho, utilizar a outra mão, com maior freqüência, aprender um novo idioma ou a usar um computador, ler um estilo de livro diferente do habitual. Assim, se cria novas conexões no cérebro! Não tenha medo de descobrir coisas novas.

Boa Vida Online – Como fica o comportamento do paciente com Alzheimer, com a doença em estado avançado?

Dr. Marco Aurélio Borges – É imprevisível. Porém, é comum que isso aconteça. Nesses casos, temos que ajustar as medicações, para controlar o comportamento inadequado. E isso, não é uma tarefa fácil, pois às vezes, a medicação deixa o paciente muito sonolento, “grogue” e, aumentam os riscos de queda.

Em casos de delírio, quando o paciente alterna períodos de lucidez e de desorientação, ele pode falar palavras desconexas (“não fala coisa com coisa”) e ter falta de atenção e alucinações, temos que investigar as potenciais causas para isso. Nesses casos, devemos tratar a “causa base” (o que desencadeou tudo isso, que pode ser algo simples, como desidratação ou, algo grave, como uma infecção), além da prescrição de medicação, para controle dos sintomas.

Boa Vida Online – Como os parentes devem agir?

Doença de AlzheimerDr. Marco Aurélio Borges – Com muito AMOR e PACIÊNCIA. A partir do momento em que entendemos a doença e a sua evolução, fica mais fácil aceitar as alterações que ocorrem e, com isso, lidamos melhor com o problema. Não adianta fugir, evitar ou negar o que está acontecendo, apesar de ser compreensível o processo de negação e de raiva, antes que ocorra a aceitação.

Os pacientes com Alzheimer seguem muito os “exemplos”. Se gritamos e ficamos agitados, existe uma grande probabilidade deles ficarem agitados também. Além disso, por eles terem menor grau de entendimento, até mesmo frases longas, podem ser de difícil compreensão. Então, se o doente ficar agitado, deve-se corresponder a essa atitude, com calma, com delicadeza, com voz baixa, com frases curtas e objetivas. Um toque suave também ajuda. Ao invés de dizer “Já cansei de falar para você, mais de mil vezes, que não tem nada aqui e, que você e eu estamos sozinhos nessa casa”. Apenas olhe nos olhos, estenda sua mão e diga “estou aqui com você”.

Boa Vida Online – Esquecimentos, do tipo, não se lembrar onde está a chave, ou o nome dos filhos, que acontecem com frequência, indicam a manifestação de Alzheimer?

Dr. Marco Aurélio Borges – Os esquecimentos acontecem durante toda nossa vida! Esquecimento não é doença!

Se estamos muito atarefados, estressados ou com vários problemas, podemos esquecer algumas coisas, isso acontece. Na Doença de Alzheimer o esquecimento será progressivo, cada vez mais frequente e mais grave. E isso influenciará nas atividades de vida diárias.

  • Esquecimento: Não saber onde está a chave do carro.
  • Alzheimer: Não saber para que serve a chave do carro.

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