Batendo à porta

Certo dia, diante de um balcão, degustando um café, eu aproveitei para observar as pessoas ao meu redor – é que adoro estudar nessas salas de aulas públicas. Façam esse exercício de espectador e não verão apenas cenas, é a tragicomédia em carne e osso nos ensinando sobre a vida. Então, eram três mulheres de meia-idade que conversavam aos quatro ventos – talvez por tamanha indignação delas diante do assunto, ou ainda porque quisessem que alguém ouvisse e desse uma solução aceitável, ou quem sabe, lhes aliviassem comprovando o equivoco dos seus pontos de vista. Entretanto, logo entendi que não era disso que tratavam.

Bem, resumindo, elas se queixavam das pessoas que viviam se queixando: das amigas, dos parentes, dos filhos, dos homens, e também dos seus homens. E assim perguntavam uma às outras: – Como consigo alguém que me faça rir e que me mostre aonde eu acerto em vez de sempre me apontar os erros? A mais falante exemplificou: – Quando chego em casa e conto uma novidade para o meu marido, o que era para  ser conversa vira problema. Ele me acusa de não ver as soluções, que segundo ele, vive a me ensinar. Então vem às críticas e nem se fala mais naquilo que era para ser abordado… _ E comigo? – vem a outra em seguida, se sentido em pior situação:_ Ele passa o dia fora e antes de me beijar já  se queixa do trânsito, da falta de educação das pessoas, do Brasil de irresponsáveis, dos políticos,  e ai vai. A terceira amiga olha de viés, para ver se alguém está escutando e desconfiada dos arredores, murmura: _Como é difícil correr atrás do que dá prazer… Sempre tem alguém para tirar seu pirulito da boca.

Ah! Que pena! – pensei. Nada de novo! Simplesmente a mesma cena corriqueira se repetindo em cada esquina. Não conformada em nada aprender, quando cheguei em casa voltei ao mundo pela internet,  procurei num site de busca: Como consigo alguém que me faça rir e que me mostre aonde eu acerto em vez de me apontar sempre os erros? E olhem só o que encontrei: 294.000 resultados. Desses, com certeza haviam muito mais queixas do que soluções. Então, me perguntei: onde estariam os homens daquelas mulheres com suas duras e prontas soluções? No Google, eles provavelmente estejam entre elas, com as mesmas queixas.

Dentre os resultados da Internet,  colhi alguns:

-Eu preciso de alguém que ame meus erros, reforce meus acertos e me faça companhia junto às palavras.

-Mostre aquilo que você é, sem medo … Esqueça a bomba, mas antes, faça algo para combatê-la.

-É amargo, eu sei, mas eu engulo e é só pra me proteger. … Ser íntimo de alguém exige muita coragem pra derrubar todos os degraus que existem até chegar, finalmente lá…

-Descobri que talvez a melhor saída seja eu rir de mim mesma, e da confusão que todos nós fazemos para olhar mais para o que dá errado do que para o que dá certo.

Gostei dessa ultima solução, mas como executar? Aprender a não esperar pela mudança do outro, e sim mudar de posição frente ao mundo. Que tal, ao invés de sentada se queixando de quem se queixa, levantar e bater à porta? Não a dos homens, a dos amigos e dos filhos que também nos pedem o que pedimos, ou batendo à porta que espera o outro entrar para nos fazer felizes. E sim, irmos a busca desse sujeito que mora dentro de cada um e é capaz de nos fazer rir, se orgulhar de nós, e, do nosso jeitinho.

Quem sabe batendo à porta de um analista você possa encontrar esse outro em si mesmo sem soluções prontas e sermões de que nada se fazem valer. Esse é um resultado que eu encorajo.

Ah! Estava bom o café mochado, mas gostei mais do que encontrei em meu teclado. Agora, que meu expresso já se expressou, com sono, encerro, do meu quarto, batendo a porta.

*Crônica publicada no jornal O Popular 

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