Bhagavad Gita – O sofrimento pode ser evitado, com Milkir Carlos de Oliveira

A maioria das pessoas foge de si mesma e passa a vida sem entender ou refletir sobre a própria mente. Há uma mente que pensa e outra que sente. Parece haver um medo do enfrentamento de si mesmo. Muitas pessoas recorrem à uma ilusória sensação de bem estar. Outras, simplesmente, vivem uma vida rasa, em torno do egoísmo. Elas ignoram a condição humana e suas possibilidades de evolução. A vida passa, os conflitos permanecem por longo tempo e o ser humano não percebe que as respostas estão dentro de si. Bhagavad Gita, é o livro que todos deveriam ler.

Bhagavad Gita - O sofrimento pode ser evitado, com Milkir Carlos de Oliveira

Ao assumir realmente o comando da nossa vida, abrimos as portas de um mundo espiritual. É preciso enxergar em nossas atitudes e pensamentos, quase sempre muito sutis, o que nos afasta da nossa essência divina

Bhagavad Gita 

A cultura indiana traz, neste livro, uma espécie de “bíblia” do autoconhecimento, valores do ser humano a serem trabalhados, no enfrentamento de nossas questões mais íntimas. Trata-se do amadurecimento interno, que nem todos têm a coragem e a disposição de enfrentar. Bhagavad Gita é uma síntese de como devemos viver e chegar à lapidação de nossas potencialidades. Um livro que nos ensina a “nadar contra a correnteza” e querer enxergar o que há por detrás do pano.

Milkir Carlos de Oliveira faz filosofia na Escola Nova Acrópole, unidade Goiânia. Trata-se de uma organização internacional de caráter filosófico, cultural e social que traz questões cruciais e de desvendamento dos valores humanos. Em entrevista ao Boa Vida Online, conversamos sobre assuntos que levam o ser humano ao entendimento da vida.

Bhagavad Gita - O sofrimento pode ser evitado, com Milkir Carlos de Oliveira

Milkir Carlos de Oliveira ministra palestras filosóficas sobre Bhagavad Gita, o livro que nos fala da simplicidade da vida

Aurélia Guilherme – O que diz  o livro Bhagavad Gita sobre o medo de enfrentamento que o ser humano tem de si mesmo? Por que fugimos tanto do amadurecimento interno?

Milkir Carlos de Oliveira – O livro Bhagavad Gita expõe que só há 2 caminhos: a ascensão ao Espiritual ou ao Material. Assim, Arjuna, que é o personagem principal do livro, decide lutar e querer ascender ao Espiritual. Cedo ou tarde, todos nós seremos Arujna. Em algum momento tomaremos  a consciência e escolheremos o Espiritual.

Aurélia Guilherme – Sim, acredito que este seja o caminho de todos mesmo. Porém, há muito sofrimento até que esta escolha seja entendida. Haveria atalhos que nos tirasse a venda da cegueira?

Milkir Carlos de Oliveira – Eu não diria atalhos, mas sim, entendimento. À medida que vamos expandindo nossa consciência e conhecendo as Leis que regem a vida, tudo fica mais fácil e com menos dor. Essas Leis são basicamente o Dharma e o Karma. Esta última, é muito mais compreendida no momento atual. Muitos pensam que seja apenas um castigo ou um sofrimento desnecessário. O entendimento de algumas Leis nos livram de muitas dores.

Aurélia Guilherme – O Espiritual entendido negaria o Material? Essas duas  condições não poderiam andar em paralelo?

Milkir Carlos de Oliveira – O Espiritual não nega o Material, ambas são importantes e necessárias. A diferença é que o Espiritual é superior ao Material. O Espiritual se manifesta, em nosso nível, através do material. A Divindade está contida em todos os elementos materiais, desde o mineral até o humano. Tudo é sagrado, tudo é Divino, porque Deus está em todas as coisas. Isso é fácil de compreender quando se entende o Mito de Osíris no Egito.

Aurélia Guilherme – Do que se trata o Mito de Osíris no Egito?

Milkir Carlos de Oliveira – Basicamente é um Mito no qual o Deus Osíris é cortado em pedaços e distribuídos no mundo. Ao recolher todos os pedacinhos, percebe-se que Deus está contidos em todos as partes. Ou seja, tudo é Osíris, tudo é Deus. Claro que a explicação é bem profunda e não é possível explicar um Mito dessa magnitude em poucas linhas. Gastaríamos horas conversando à respeito somente desse Mito.

Aurélia Guilherme – Nós passamos a vida buscando a conquista dos nossos desejos e nos frustramos, muitas vezes, nessa caminhada. Nossos desejos, diga-se de passagem, na maioria do tempo, está contido na matéria, como sucesso, dinheiro, etc. Ou, na conquista de pessoas e sentimentos “importantes” em nosso imediatismo. Qual é o papel humano em sociedade? O que o livro diz sobre a ilusão do que realmente importa?

Bhagavad Gita - O sofrimento pode ser evitado, com Milkir Carlos de Oliveira

Bhagavad Gita – A mudança é a Lei do Universo. O que consideramos morte, é vida. Pode-se perder e ganhar tudo a qualquer momento. Não sofra pelo passado, não se preocupe com o futuro. É o presente que precisa ser vivido com intensidade, sem apego, sem orgulho, sem ilusões

Milkir Carlos de Oliveira – Várias filosofias e grandes Mestres da Humanidade, tais como Buda, deixa bem claro que a origem da dor é o desejo. Nós, enquanto tivermos desejo ou que toda nossa ação seja movida por desejo, estaremos sofrendo. O segredo é não possuirmos desejo de recompensa. Deveríamos apenas ter atitudes humanas e não querer nada em troca do que fazemos ou pensamos. A Reta-Ação é um conceito um pouco complexo, quando visto pela primeira vez. Dizer que deveríamos agir sem esperar nada em troca é algo um pouco difícil no momento. Mas é possível, sim! Inúmeros Mestres e pessoas já o fizeram.

Vou tentar exemplificar: uma mangueira cresce e dá frutos. Assim ela simplesmente dá seus frutos, sem esperar nada em troca. Ela está simplesmente exercendo o seu papel de planta. Assim, o ser humano deveria exercer apenas o papel de SER Humano.

Aurélia Guilherme – Certo. Porém, somos seres em processo evolutivo. Me parece que as plantas já tem uma programação em seu ciclo. Ao contrário de nós. No caso, o desejo e a frustração seriam um termômetro da inquietude e que auxilia no amadurecimento. Estou errada?

Milkir Carlos de Oliveira – Sim, as plantas também estão em processo evolutivo. Mas não possuem o livre arbítrio. Nós o possuímos e a nossa evolução é um pouco diferente. O desejo gera karma. Enquanto tivermos desejos, deveremos encarnar inúmeras vezes.

Agir com Reta-Ação não gera karma e assim, não haveria necessidade de encarnar novamente. A frustração pode ter seu lado bom, para que tomemos consciência que estamos no caminho errado. Que deveríamos retornar ao caminho correto. Caso contrário, continuaremos a sofrer com dores em todos níveis.

À medida que nossa consciência evolui, nosso entendimento da Lei que rege a Vida também se expande. Assim, consequentemente, nossas dores e frustrações vão diminuindo. A frustração pode ser um prova. Algo que a vida trouxe para que possamos crescer. Mas, ao invés disso, ficamos frustrados. Algo parecido como uma prova que não passamos e que devemos refazer novamente até superar as dificuldades.

A Vida nos coloca em teste todos os dias para que possamos aprender com tudo e com todos ao nosso redor. A Natureza é generosa ao nos presentear com esses testes. Quando não os compreendemos, apenas SOFREMOS sem entender o que a vida quer nos dizer. Achamos que as provas da vida são OBSTÁCULOS intransponíveis. Isso gera muita dor e sofrimento desnecessários.

Aurélia Guilherme – Qual a leitura que podemos fazer de nossas infinitas possibilidades?

Milkir Carlos de Oliveira – Penso que é viver com mais intensidade. Não, exatamente em quantidade mas, em PROFUNDIDADE. Uma ideia bem compreendida e vivida, vale mais do que saber um milhão de coisas, sem aplicação prática. Devemos colocar em prática aquilo que aprendemos. Isso é muito simples. Mas, nem sempre estamos dispostos, porque crescer gera muito medo nas pessoas. Muitos têm medo do desconhecido e preferem ficar onde estão para  evitar riscos. Muitos preferem o comodismo e a inércia.

A escola de filosofia Nova Acrópole procura repassar aos estudantes coisas simples e aplicáveis ao dia a dia na construção humana. Devemos procurar nos construir sempre como seres humanos baseados nos conceitos da Fraternidade Universal (Amor), no estudo comparado entres as artes, religiões e ciências. Sem nos esquecer da realização humana e consciente para melhorar o mundo em sua volta.

Bhagavad Gita - O sofrimento pode ser evitado, com Milkir Carlos de Oliveira

Bhagavad Gita, o livro indiano que diz que se as pessoas fossem mais simples, dissipariam a neblina frente aos olhos! Há um mundo a ser desvendado a partir de nós. Chegamos com nada e voltamos para a casa do pai, nus. Então, o que estamos fazendo com a própria vida?

Aurélia Guilherme – A ansiedade, os desejos e frustrações são manifestações do ego? O ego nos deixa míopes?

Milkir Carlos de Oliveira – Não sou conhecedor de psicologia. Porém, o Ego nas tradições filosóficas é algo muito Superior. Seria algo próximo do Divino, aquilo que mais temos de Sagrado dentro de cada um de nós.

Mas, alguns se referem ao ego, como pertencente à personalidade. Daí, sim, tudo isso que você mencionou emana basicamente do Egoísmo. Este nos deixa míopes e não conseguimos distinguir o que é válido do que não é válido, o real do irreal. Todos os nossos defeitos (angústias, frustrações, vaidades, orgulho, raiva, ira…) provêm do egoísmo. Retornando novamente à Reta-Ação, Krishna, que é o mestre no Bhagavad Gita, instrui Arjuna a prática a Reta-Ação. Kishna ensina justamente como superar o egoísmo e o desejo de recompensa.

Aurélia Guilherme – Por que temos tanto medo de nos sentir livres, vivos e despertos para pensar e agir?

Milkir Carlos de Oliveira – Comodismo, medo de crescer e da cultura da irresponsabilidade. Estamos acostumados a colocar a culpa do que nos acontece no mundo, na política, nas pessoas e no clima. Deveríamos ser mais responsáveis e entender que tudo aquilo que nos acontece é inerente a nós mesmo. Somos responsáveis por tudo o que nos acontece de bom e de ruim. Seremos livres de fato quando tivermos disciplina e possuirmos o comando de nós mesmos. Não devemos agir ou pensar em conformidade com o mundo exterior. Devemos agir em conformidade com as Leis Universais que geram toda a vida no Universo.

Há uma grande confusão do conceito de liberdade, que é fazer tudo o que se quer e na hora imediata. Isso não é liberdade, isso é escravidão. Estamos agindo instintivamente, como um mineral (inércia), planta (reter energia) ou animal (curtir os instintos ao máximo).

A verdadeira liberdade é chegar a possuir a condição humana, como seres humanos que somos. E, agir como tal. No entanto, temos uma consciência mineral, vegetal e animal. Infelizmente, grande parte da nossa vida é vivida como a de um cachorrinho, que busca o prazer e foge da dor. Procria, quando surge a cadelinha, busca o conforto e o bem estar. Claro que o conforto, prazer, bem estar não são desprezíveis, são importantes, sim. Mas como um MEIO e, não, como finalidade da vida humana.

Aurélia Guilherme – Para que serve cada um desses sentimentos, na visão Nova Acrópole?

Sofrimento –

Milkir Carlos de Oliveira – O sofrimento é decorrente da ignorância. Se estamos sentido dor é porque estamos no caminho errado, e o Karma está nos reconduzindo ao caminho correto. O karma nos corrige através do sofrimento mas entenda que isso não é castigo e sim correção. Quando estamos doentes fisicamente é ótimo que tomemos um remédio, mesmo que seja amargo. O karma é um remédio amargo mas se não o tomarmos, não teremos chance de crescer.

Morte – 

Milkir Carlos de Oliveira – A morte hoje é muito mal interpretada e compreendida. É algo necessário e importante para que haja renovação, para que o espírito volte a manifestar novamente e a colher novas experiências.

Velhice –

Milkir Carlos de Oliveira – A velhice é outro conceito equivocado. Grande maioria pensa que a velhice é a pior parte da vida porque já não serve para nada. A velhice é algo grandioso e acredito que seja o momento áureo da vida. Nessa fase estamos colhendo os bons frutos que plantamos.

Drogas –

Milkir Carlos de Oliveira – As drogas são um grande mal da humanidade e é um assunto muito complexo. Desde os primórdios o homem faz uso de drogas para se entorpecer e buscar momentos de prazer. Particularmente penso que não necessitamos desse tipo de prazer porque é muito maléfico ao corpo e a alma humana. Há outros tipos de prazer que são superiores, tais como os prazeres da alma, os prazeres sociais e claro que os prazeres físicos são bons e necessários.

Bhagavad Gita - O sofrimento pode ser evitado, com Milkir Carlos de Oliveira

Bhagavad Gita – Quanto imediatismo na solução dos nossos problemas! Tudo passa, tudo é provisório. Estamos neste mundo para aumentar nossa capacidade de resiliência

Orgulho, carência, apego, medo…

Milkir Carlos de Oliveira – São debilidades que devemos estar constantemente em luta contra elas. Todos esses sentimentos querem assumir o comando da nossa vida e impedir que ascendamos ao mundo Espiritual. É uma batalha difícil. Mas, nem sempre queremos lutar ou estamos dispostos a querer enxerga-los em nossas atitudes e pensamentos, as vezes tão sutis. Assim, fica muito difícil combate-los. São debilidades que deveríamos dominá-los de maneira consciente (Via Filosófica) ou através das circunstâncias ( através da dor).

Aurélia Guilherme – Acredito que o orgasmo profundo e intenso seja cósmico. No entanto, as religiões nos limitam à culpa. E, vamos seguindo meio que robóticos, entre o que gostaríamos de experimentar e a culpa da moral cristã. Qual a sua opinião sobre os instintos sexuais, a dificuldade da entrega e a liberdade de receber o outro, faze-lo feliz e deixa-lo ir embora?

Milkir Carlos de Oliveira – Vou dar a minha resposta pessoal sobre o assunto. Sexo é muito importante e muito prazeroso. Mas, se ficarmos focados nele, como finalidade, acabamos sofrendo muito. Sexo é algo transitório e passageiro, de acordo com nosso corpo físico. Devemos aproveitar esse recurso que a Natureza generosamente nos presenteou e fazer bom uso dele. Claro que as religiões influenciaram essa questão e até criou-se vários dogmas com relação ao sexo. Acredito que é válido e agradável sim, enquanto meio e, não, como finalidade.

Não coloco o sexo, como finalidade da minha vida. Há pessoas que só seriam felizes ou fariam outras pessoas felizes, através dele. Penso que há outras possibilidades tão importantes quanto o sexo. Companheirismo, afinidade, o amor entre as duas pessoas…. Se eu o colocasse o sexo como finalidade, como seria minha vida depois que meus desejos diminuíssem ou acabassem? Certamente me sentiria infeliz, injustiçado, angustiado, ou até mesmo deprimido. A vida é muito rica e podemos vive-la com muita intensidade. Temos um Universo de opções para sermos Humanos. A condição huana já nos tornaria feliz, independente de qualquer outra coisa. Basta apenas que busquemos Ser Humanos.

Aurélia Guilherme – A transformação, a abertura da visão, a simplicidade do entendimento, a felicidade… Os atalhos existem e só dependem de nós?

Milkir Carlos de Oliveira – Sim, tudo isso só depende única e exclusivamente de nós. É algo interno e que nem os Deuses podem fazer isso por nós. Temos o livre arbítrio para tal. O que você mencionou é alcançado, quando chegarmos a condição de Ser (verbo)  Humano. Ainda somos mais animais e plantas do que Seres humanos

Gostaria de convidar a todos para conhecer um pouco mais sobre a luta que ocorre dentro de cada Ser humano. O bem e o mal, entre nossas virtudes e nossos defeitos. Essa luta é retratada dentro de uma obra chamada Bhagavad Gita, um dos principais livros que a Humanidade já conheceu. É uma síntese de como devemos viver e chegar à Condição Divina, chegar a Deus.

Veja também, outra entrevista sobre os caminhos da espiritualidade, com o médium Paulo Neto, aqui!

Conheça mais sobre a Filosofia Nova Acrópole. Acesse o site da escola

Bhagavad Gita - O sofrimento pode ser evitado, com Milkir Carlos de Oliveira

Bhagavad Gita – O sofrimento pode ser evitado, claro que sim. Basta querer!

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