Bioconstrução: construindo a própria casa com a família Shalev

Já imaginou construir a sua própria casa? Não apenas idealizando, planejando e adquirindo o recurso financeiro necessário. Mas, ir além disso, colocar a mão na massa, literalmente. Ultimamente, muito tem se falado sobre a Bioconstrução. Trata-se de uma técnica responsável por erguer um imóvel, de uma maneira rústica e artesanal.

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Bioconstrução

Na Bioconstrução se utiliza apenas recursos da natureza no processo construtivo. O resultado é lindo: muito amor pelo produto final e o contato direto com a natureza. A começar pelo chão em que se pisa ou pelas paredes que rodeiam o seu sono. Conversamos com um ser de muita força, Cobi Shalev. Aos 35 anos, ele reside com sua família na sua tão sonhada – e suada – casinha de barro. Cobi nasceu e foi criado em Israel, mas apaixonado pelo Brasil, decidiu fincar suas raízes por aqui, na cidade de Olhos d’água, interior de Goiás. Pelas suas próprias palavras, acompanhemos mais uma história de transbordar os corações:

O início em Israel

“Quando criança, meus pais se mudaram para tantos apartamentos diferentes, que comecei a sonhar que um dia teria minha própria casa. Mas ela teria que ser feita por mim seria minha morada até o fim. Me lembro de inventar pequenas casas, feitas das caixas de papelão, que eram usadas nas mudanças. Aos 18 anos, me alistei no exército israelense e aos 21 – quando terminei meu serviço obrigatório – eu já estava sonhando longe. Vim de uma família de poucos recursos e pensei que ganhando um bom dinheiro, faria minha vida mais feliz. Trabalhei como gerente de locadora, técnico de computadores e no atendimento de clientes de uma grande empresa de celular. Com o dinheiro que ganhei, comprei um computador e uma geladeira, microondas e todos os acessórios necessários para uma vida se levantar”.
Bioconstrução: construindo a própria casa

Inspirações para parir o sonho

“Me lembro que cheguei em casa depois de um dia cansativo de trabalho e assisti o “Diário de Motocicleta”, um filme sobre as histórias do Che Guevara e suas viagens pela América Latina. Percebi logo a sua liberdade: andando com seu amigo, em cima de uma moto, atravessando a selva e indo atrás de seu sonho.
Isso tudo se opunha à minha realidade cotidiana, que acordava todo dia, trabalhava para os outros só para pagar as contas mais básicas  e garantir a minha sobrevivência. Por dias, fiquei pensando no filme e nesta minha realidade. Só então entendi que para ser feliz era preciso mudar a minha vida e voltar a sonhar. Pedi demissão, juntei o resto de dinheiro que tinha, entreguei meu apartamento, espalhei minhas máquinas por ai e parti para a Índia. Chegando lá, comprei uma moto e parti em busca dos meus desejos reais. Se dependesse só de mim, iria acabar procurando outras realidades que não me levariam a lugar nenhum. Mas um acidente e, consequentemente, um pé quebrado, me levaram de volta, embora frustrado”.
Bioconstrução: construindo a própria casa

A força do amor

“Depois de oito meses de viagem pelo Nepal, encontrei uma bela moça, que viria a ser a mãe do meu filho. A busca recomeçara e agora éramos dois. Juntos, passamos pela Tailândia, Laos e Vietnã. Sonhávamos com a nossa casa fora de Israel, já que não gostávamos dali para morar. Lá os preços são absurdos e há dificuldade relativa de viver em um lugar com pouco espaço geográfico”.
Bioconstrução: construindo a própria casa

Um forte contato com a terra

“Ao voltarmos para Israel, junto com vários amigos de uma comunidade, alugamos uma das primeiras fazendas de permacultura por lá. Os donos viajariam pela Índia e nos deixariam em uma chácara, com várias casas de barro, ferramentas e uma boa estrutura. Isso me trouxe de volta, aquele sonho antigo: aprender a construir.
Foi assim que, junto com a minha companheira, começamos a construir uma casinha meio subterrânea (estávamos no deserto e debaixo do solo) A casa garantia uma temperatura mais agradável, era feita de cob, uma técnica antiga de construção de barro e palha. Durante seis meses, e com muita ajuda, aprendemos a construir, com as possibilidades da terra. Me encantei com aquela simplicidade toda. Além disso, com nossas próprias mãos, criamos nosso abrigo, aconchegante e pessoal. Quando os donos voltaram, resolvemos buscar nossa sorte em outras terras como woofers – woof, voluntários em fazendas orgânicas.  Passamos alguns meses na Espanha, depois Argentina, Paraguai e Brasil”.
bioconstrução - contruindo a propria casa

O encanto pelo Brasil

“De todos os lugares pelos quais passamos, o Brasil foi o que nos encantou de maneira mais profunda. Uma cultura que nos acolheu, que conseguimos entender, um povo hospitaleiro e receptivo. Resolvemos fincar nossos pés no cerrado brasileiro, numa cidadezinha pequena, chamada Olhos D’água. No entanto, os primeiros anos como imigrantes nunca são fáceis: dificuldade com o idioma, pessoas novas, a procura por emprego. Só depois de dois anos trabalhando é que surgiram as primeiras oportunidades disponíveis. Chegamos ao momento de construir a nossa casa, finalmente”.
Bioconstrução: construindo a própria casa

A tão sonhada construção

“Com a ajuda dos meus sogros, compramos um lote e embarcamos, desta vez, com maior escala na aventura de construir nossa casa. Para baratear o custo, cavamos uma cisterna para tirar água e um buraco para extrair terra. Com isso, fizemos tijolos, que secavam rapidamente ao sol do planalto. Com uma base firme de pedra, começamos, um por um, a assentar os 3000 blocos, de 15 kg cada um, no seu devido lugar.”
 Bioconstrução: construindo a própria casa

Vencendo as dificuldades

“Trabalhávamos só nós dois, um homem e uma mulher, com poucos recursos, mas muita vontade. Não foi nada fácil. A obra se esticou mais que do que o planejado. Durante uma época de chuva ficamos extremamente frustrados com a construção, cobrindo e descobrindo paredes. Surpreendentemente, apesar de ser feita de terra, não se desmanchava nesta chuva tropical.
O processo durou cerca de oito meses e ao final, entramos na nossa casa, ainda inacabada, mas nossa. Dentro de um ano, minha companheira ficou grávida e deu à luz ao nosso filho tão querido, de quase três anos, hoje. Para ele, morar numa casa de terra já vai ser algo normal. Mas ele ainda é muito novo para distinguir nossa casa de outras casas. No entanto, ele já sabe pisar barro e fazer adobe. É muito rico poder brincar com a terra, sabendo que ela não e só ‘sujeira’, mas o material que faz nossa casa”.

O processo e a beleza de uma casinha de barro

“A sensação de morar numa casa de barro e incomparável em relação a qualquer outro tipo de casa.  As paredes são grossas, fortes, mas macias – agradáveis ao toque. A terra, respira, absorve e imita vapor, ajudando na regulagem da temperatura do ambiente. De noite, está quentinho e durante o dia, está fresco – o que garante a não proliferação de mofo e musgo. Segundo pesquisas, as paredes de barro também ajudam na absorção de poluentes. Além da beleza da terra, a grande vantagem é o custo benefício: fazer nossa própria casa nos permitiu construir com poucos recursos. Já pensou, ter uma casa sem dever nada para ninguém”?
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A casa de barro, feita de matérias simples é fácil de reparar, como qualquer outra casa. O reboco leva uma massa fininha, normalmente feita de terra ou cal e as tintas também são baseadas nessas matérias. Uma casa de barro, assim como uma casa comum, é feita de um conjunto de matérias e maneiras diferentes. Mas a execução e o desenho bem feito determinam a qualidade. É bem possível ter uma casa de barro como quisermos, com cerâmica no banheiro, paredes limpas e janelas grandes. No Brasil, assim como em outros países do mundo, a construção natural está fazendo a transição para o mainstream. Igual ao que está acontecendo com os alimentos orgânicos – as pessoas se despertam cada vez mais para o natural. É uma casa com matérias naturais, com elementos não processados, um possibilidade de construção civil que tende a crescer cada vez mais”.
Bioconstrução: construindo a própria casa
Bioconstrução: construindo a própria casa
Bioconstrução: construindo a própria casa

O coletivo que nasce

“Dessa história toda, surgiu o coletivo ADAMA. Trata-se da união de alguns arquitetos e construtores se representarem como grupo. Isso fortalece um ao outro e divulga a filosofia da construção natural. Assim, é possível ter mais facilidade em receber projetos e trabalho. Como o coletivo, a gente constrói, faz projetos bioconstrutivos e capacita outros construtores a realizarem cursos na área da Bioconstrução em diversos lugares no Brasil”.

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