Bullying – A dor da diferença

Monta-se uma confraria com um interesse em comum: de amantes de poesias ou de colecionadores de carros antigos. Sem dúvida é prazeroso, caso seja um apreciador desses, mas porque esse deleite não poderia ser solitário? Montar um grupo, coincidir datas e horários, na rotina de over-book da maioria, é uma tarefa que exige bastante vontade.

Penso que, na raiz, o que reúne esses grupos vai bem além do objeto de hobbie em si. O fato é que é intensamente tranqüilizadora a sensação de estar num grupo onde se é aceito por compartilhar um desejo. Ter algo forte em comum é garantia de ser benquisto. Todavia, garantias vencem mesmo as estendidas findam. Passado algum tempo, esgotada também será a ilusão desse grupo de possuírem tanto em comum. As diferenças de cada pessoa passam a se realçar, e se alguém fica em evidencia o grupo pode imitá-lo ou rejeitá-lo, ou então se formam subgrupos, e surgem as fofocas e a banda de rock se desfaz. É claro que o grupo pode dar certo, mas isso vai depender de como tais membros resolveram suas necessidades de serem aceitos.

Bem, mas isto não era um artigo sobre bullying?  Quase me esqueci dissertando sobre fenômenos de grupo? Não. Para alcançarmos um dos motivos da questão precisamos nos remeter às mazelas primeiras que sofrem um ser humano.

Qual seria uma das causas pelo qual o homem se torna muito mais hábil a banir do que para  integrar?

Certa vez foi verdade que vivemos no paraíso, éramos um só, éramos nós e nossa mãe misturados – na paz da plenitude.  O conto de fadas começa a virar drama quando começamos a intuir a diferença que havia entre o nosso eu e nossa mãe. O clímax dessa  história se dá  quando deixamos de ser todo o desejo da nossa mãe, para sermos apenas parte – e tanto quanto mais repentinamente tomamos conhecimento disto maior a dor. Alguma coisa se tornou diferente e extremamente ameaçadora, e essa mãe começou desejar também algo diferente além de nós. Do olhar da mãe para o estranho poderia resultar a nossa morte ou uma frustração aniquiladora, ou ainda um sofrimento passível de ser assimilável. Inegável é que um dia realmente fomos expulsos do paraíso – a serpente existiu e atraiu nossa mãe com um fruto diferente.

Caso não lidemos com essa angústia seremos escravizados pelo desejo de tentarmos incessantemente retornar ao paraíso perdido.  Assim ou viveremos para agradar o outro, ou hostilizaremos os que julgamos diversos de nós.

É provável que não nos recordemos do inicio dessa história, mas já um pouco a frente, sim. Com certeza todos nos lembramos de alguns peles da nossa turma. Até porque, em algum momento é provável que tenhamos sido um deles. Eram os altos demais, os baixinhos, a gordinha, a estrábica, a negra, o manco, o desengonçado, o atrapalhado, e os sem noção – como dizem agora. Os rótulos, motivo fútil das agressões, eram apenas um carimbo. Na verdade os escolhidos para serem agredidos eram os tímidos, os frágeis – no sentido de que não conseguiam dar limite às provocações do outro. Eram os peles que estavam ali para ser pisados e pisoteados.

O bullyng é uma reação de má adaptação ao processo civilizatório do homem e uma das causas é nos ser a diferença insuportável por nos remeter àquele passado ameaçador.

Evidentemente que situações adversas e descasos de pais, escolas e professores acentuam o fenômeno. Certa vez soube de um caso em que uma menina de 10 anos vinha chantageando há um ano os colegas de turma, e recebia em espécie, para não contar as fofocas à professora. Quando o caso foi levado ao colégio, a coordenadora respondeu: _ Mas como pode? Os pais dessa menina são tão parceiros da escola?A menina percebeu a denúncia e agrediu uma das colegas com um soco, a partir de então ela foi totalmente exilada socialmente pela turma que agora com o poder nas mãos já não se submete. Todos se calaram, e o bullying só mudou de direção. Vilões se tornam vítimas e vice-versa.

Pais e escolas não podem simplesmente deixarem a coisa se resolver por si só, tão pouco apenas propagandas com panfletos e adesivos com NÃO AO BULLYNG e uma repressão massificada vão arrefecer o fenômeno. Cada situação deve ser tratada isoladamente, e receber a interferência adequada a cada caso.  É necessário entender sua origem e não nos deixarmos cair novamente na armadilha de procurar soluções iguais fugindo do diferente que ainda nos assombra.

*Crônica publicada no jornal O Popular 

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