Compreendendo o sono, com a Neurofisiologista Maria Ângela Tolentino

O sono representa um estado de restauração física e mental em que a pessoa se torna relativamente inativa e irresponsiva. Toda a energia que gastamos para exercer as atividades cotidianas gera uma espécie de lixo metabólico, que é “varrida” do corpo durante a noite, restaurando os processos químicos e físicos deteriorados durante o dia. É um afastamento parcial do mundo, em que os estímulos externos são bloqueados aos sentidos. Mas o cérebro humano se mantém alerta e ativo, como quando a pessoa está acordada. O corpo, no entanto, sofre queda da temperatura, da pressão arterial, do ritmo da respiração e da maioria das funções vitais, em determinadas fases do sono.

Dessa forma é possível “arrumar a casa”, organizando funções orgânicas, bem como as funções cognitivas, em especial a memória, e proporcionando melhores condições de aprendizado, notadamente para os conhecimentos aprendidos recentemente, reparando assim o desgaste físico e renovando os tecidos das células nervosas e de outros componentes bioquímicos. Está totalmente enganado quem pensa que dormir é perda de tempo. Veja na entrevista a seguir, com a Neurofisiologista Clínica, Maria Ângela Tolentino:

Dra. Maria Ângela Tolentino, Neurofisiologista Clínica, CRM – GO 3263.

Boa Vida Online – O sono tem uma organização própria. Quais são os estágios do sono e qual a importância deles?

Dra. Maria Ângela Tolentino – Durante um ciclo de sono de oito horas, há alternância entre dois estágios: o estágio REM ou movimento rápido dos olhos e o estágio não REM ou sono de ondas lentas, sendo que esse último ainda é subdividido por quatro tipos de estágios fisiológicos diferentes, que vão da sonolência ao sono profundo. Quando uma pessoa se deita para dormir, à medida em que ela fica sonolenta, inicia-se a primeira etapa do sono não REM, que é a fase do cochilo, em que atravessamos o portal e nos preparamos para o mergulho, com uma soneca leve. A respiração e os músculos começam a relaxar, mas ainda podemos ser acordados facilmente. Em seguida, vamos aprofundando o sono e entramos na segunda etapa do sono não REM, quando este já está consolidado. Passamos depois ao terceiro estágio não REM. O corpo começa a entrar no sono mais profundo. As ondas cerebrais tornam-se grandes e lentas. A quarta etapa se caracteriza por ser o estágio de sono mais profundo, para que o corpo se recupere do cansaço diário.

O sono não REM é fundamental para a liberação de hormônios ligados ao crescimento e para a recuperação de células e órgãos. A pessoa fica transitoriamente inconsciente e dificilmente pode ser acordada. Após algum tempo, que varia de 60 a 90 minutos, começam as mudanças nas condições fisiológicas para mergulhar na fase REM, onde nós sonhamos dormindo. Nesse estágio, a atividade cerebral está a pleno vapor e desencadeia o processo de formação dos sonhos. Se a pessoa for acordada nesse momento, provavelmente se recordará de parte desses sonhos. Mas paradoxalmente ativa-se um mecanismo inibidor de atividade voluntária.

Os músculos longos do tronco, os braços e as pernas paralisam, para que a pessoa não tente realizar o que se passa nos sonhos, mas os dedos das mãos e dos pés podem se contrair. O fluxo sangüíneo em direção ao cérebro aumenta, fazendo a pressão arterial subir, os batimentos cardíacos aceleram e a respiração fica mais rápida e entrecortada.

Depois de alguns minutos na fase REM, volta-se a descer às fases de sono não REM. Os estágios REM e não REM se alternam em ciclos que variam de 90 a 110 minutos. Uma pessoa, geralmente, passa por 4 ou 5 e até 6 desses ciclos a cada noite de sono.

Boa Vida Online – O que acontece quando há privação do sono?

Dra. Maria Ângela Tolentino – Quem não dorme bem experimenta prejuízos no desempenho de atividades diárias, irrita-se com mais facilidade e tem mais dificuldade de se concentrar durante o dia, produz menos e tem menos chances de crescer. O organismo é estimulado a produzir hormônios inibidores e estimulantes do sono. Estudantes ou motoristas que costumam fazer uso de substâncias estimulantes para não dormir, como guaraná em pó, café com cola e, principalmente, anfetaminas, provocam picos na produção de hormônios que estimulam a vigília, mas uma vez cessado o efeito excitante, vem o cansaço, a dificuldade de concentração, a irritabilidade, a aparência envelhecida, que são sinais que passam facilmente quando dormimos bem nas outras noites subseqüentes.

O problema é a repetição dessas noites mal dormidas, que provocam resíduos irreversíveis, que podem ser sentidos principalmente na perda crônica da memória. Alguns pacientes chegam a se esquecer de coisas básicas, como o caminho para chegar em casa ou se já almoçaram. Essas pessoas também desenvolvem reações de extrema irritabilidade, que beiram a agressão, além de apresentarem falta de vigor físico, envelhecimento precoce, diminuição do tônus muscular, comprometimento do sistema imunológico, tendência a desenvolver obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e gastrointestinais. Os prejuízos são seríssimos.

Boa Vida Online – Thomas Edison, talvez por ter inventado a lâmpada, afirmava que dormia menos de 5 horas por noite. Einstein, por sua vez, talvez pela relatividade do espaço-tempo, dizia precisar mais de 10 horas por dia. Afinal, quantas horas de sono são necessárias por noite?

Dra. Maria Ângela Tolentino – As crianças recém-nascidas precisam dormir, em média, 18 a 20 horas por dia. Com o passar do tempo, o cérebro se organiza gradativamente, para que não seja necessário um sono tão extenso. Com 1 ano de idade, a criança passa a dormir menos durante o dia, até que, com 6 anos, ela dorme em torno de 8 horas noturnas. Mas a arquitetura do sono é alterada novamente quando chega a adolescência. As mudanças hormonais e a fase do estirão do crescimento vão exigir um período de sono maior, cerca de 9 a 10 horas, para que a restauração física e mental sejam plenas.

Passada essa fase, o organismo adulto volta a ter necessidade de dormir de 6 a 8 horas por noite, com exceção das pessoas consideradas hiperssones que, para se sentirem descansadas, precisam dormir cerca de 9 a 10 horas por noite, e das pessoas hipossones, que necessitam de apenas 4 ou 5 horas de sono por noite. Essas variações são traços genéticos e estão dentro do que é considerado normal. É o relógio biológico e o ritmo circadiano que determinam o número necessário de horas de sono, sem prejuízos mentais ou físicos, a não ser que a variação do tempo de sono esteja ligada a condições fisiológicas que mantém o sono apenas nas etapas mais superficiais, a algum tipo de ansiedade emocional temporária, muito freqüente no mundo moderno ou a algum distúrbio que esteja desestruturando a arquitetura do sono. Já por volta dos 60 anos, o sono começa a ficar fragmentado e os estágios de ondas lentas mais profundos começam a diminuir.

O sono do idoso permanece quase o tempo todo nas etapas 1 e 2 e é por esse motivo que ele acorda tão freqüentemente durante a noite. Além disso, por ter mais tempo livre, o idoso tem tendência a dormir de dia, o que ajuda a perder o sono à noite.

Boa Vida Online – Fale sobre os hormônios que são produzidos durante o sono?

Dra. Maria Ângela Tolentino – Durante o sono profundo, as proteínas são sintetizadas em grande escala, com o objetivo de manter ou expandir as redes de neurônios ligados à memória e ao aprendizado. Nesse processo, o cérebro comanda a produção e a liberação de hormônios, que desempenham papéis vitais no funcionamento do nosso organismo, como a melatonina, o hormônio do crescimento, os cortisóis e muitos outros, que garantem longevidade e jovialidade e regulam os níveis de outras substâncias responsáveis pela regeneração de células e pela cicatrização da pele.

A melatonina é um hormônio produzido pela glândula pineal, existente no cérebro, situada atrás da região dos olhos e, é responsável em induzir e regular o sono, controlando o ritmo de harmonia entre o dia e a noite, a luz e o escuro. Ela começa a ser secretada a partir do momento em que fechamos os olhos e é bloqueada na presença de luz. Aos 60 anos temos metade da quantidade de melatonina que tínhamos aos 20 e, por volta dos 70 anos, os níveis desse hormônio caem vertiginosamente, sendo outro motivo para que o idoso tenha problemas de falta de sono reparador.

O hormônio do crescimento também é liberado durante a noite, principalmente nas fases 3 e 4 do sono não REM. A sua produção, na glândula pituitária, é maior durante a puberdade. Portanto, esse hormônio é muito importante para o crescimento, desde os primeiros anos de vida até o fechamento das cartilagens de crescimento dos ossos, o que ocorre, em geral, entre os 15 e os 20 anos de idade. Por isso, na adolescência é necessário maior número de horas dormidas para não haver alteração do relógio biológico, atrasando o crescimento. O contrário também não é ideal. Pessoas que dormem muito cedo adiantam o relógio biológico, que só começa a funcionar corretamente em torno das 22 horas até por volta das 6 da manhã, tempo certo para que ocorram todas as funções do sono. Na fase adulta, a produção do hormônio do crescimento é reduzida a cada década e é muito importante na recuperação e construção dos músculos, evitando a flacidez e garantindo o vigor físico. Além disso, esse hormônio age diretamente no metabolismo da gordura corporal e melhora o padrão do sono.

Uma noite bem dormida também evita que o organismo acumule altos teores de cortisona. Esse hormônio, produzido pelas glândulas supra-renais, é liberado em situações de estresse e contribui para aquele insuportável mau humor depois de uma noite em claro. Esse também é um importante hormônio, que regula ainda a reação inflamatória no corpo e a quantidade de glicose no sangue, em períodos de estresse.

Boa Vida Online – O que é a polissonografia?

Dra. Maria Ângela Tolentino – A Polissonografia é um exame que avalia a estrutura do sono fisiológico, com mais freqüência no período noturno, mas quando necessário também o fazemos no período diurno. Analisa-se, nesse exame, algumas variáveis fisiológicas, entre elas a respiração, os batimentos cardíacos, a variação da oxihemoglobina, os movimentos de pernas e de braços, além da arquitetura e a organização do sono.

O paciente passa a noite no laboratório, em um quarto semelhante ao de uma casa, preservando todos os hábitos noturnos, seja na alimentação, no uso de medicamentos ou em visitas ao banheiro durante a madrugada. Todas as variáveis fisiológicas e as possíveis alterações que podem ocorrer durante o sono causadas por algum distúrbio são detectadas pelo polígrafo, como a insônia, que reduz o tempo total de sono, pela dificuldade de iniciar o sono ou de mantê-lo ou o despertar precoce; a apnéia do sono, que leva à dificuldade respiratória; a narcolepsia, que é a sonolência excessiva com ataques de sono irresistíveis em locais inadequados, mesmo durante o dia; o sonambulismo, um distúrbio, que além do ato de andar durante o sono, provoca atitudes complexas durante o sono, como cozinhar, sair para a rua e voltar para a cama e nem se lembrar no dia seguinte; o terror noturno, que produz episódios nos quais o paciente adormecido tem reações de pavor e se mostra desorientado; o bruxismo, que é o ranger dos dentes durante a noite; a síndrome das pernas inquietas, que é o desconforto intenso sentido nas pernas na hora de dormir e vários outros distúrbios que impedem uma boa noite de sono.

Esses distúrbios, quando são identificados com a polissonografia e com uma criteriosa avaliação clinica médica, podem ser tratados. E, depois que vimos o quanto é importante dormir bem, alguns hábitos devem ser seguidos para que não ocorra nenhuma intercorrência que quebre os ciclos de sono, como manter um horário regular para dormir e despertar, ir para a cama somente na hora dormir, ter um ambiente saudável no quarto, não fazer uso de medicamentos para dormir sem orientação médica, não exagerar em café, chá, refrigerante, álcool e atividades físicas, principalmente próximo ao horário de dormir, jantar moderadamente em horário regular e adequado, seguido de atividades repousantes e relaxantes e não levar problemas para a cama.

Tratando adequadamente os distúrbios e promovendo uma higiene correta do sono, dorme-se com total plenitude e acorda-se com o corpo e a mente perfeitamente restaurados para enfrentar as tarefas do dia.

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