Dia Mundial de Combate ao Câncer, com a doutora Loretta Oliveira

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Dra. Loretta Oliveira – Pediatra e Pediatra Oncológica, CRM – GO 10819

Boa Vida – Qual avaliação a senhora faz sobre o tratamento do câncer infantil nos dias de hoje?

Dra. Loretta Oliveira – O câncer é uma doença rara na infância, porém milhares de novos casos ocorrem todo ano no Brasil. Entretanto, a taxa de cura e sobrevida de vários tipos de câncer infantil vem aumentando desde a década de 60, principalmente em crianças portadoras de leucemia linfóide aguda, uma doença que era considerada praticamente incurável e que hoje tem cura em torno de 70% dos casos. É importante lembrar que a chance de cura está diretamente relacionada a ausência de metástases no momento do diagnóstico. Por isso, é importante que a doença seja descoberta precocemente. A utilização sistemática de quimioterapia, aliada ao uso racional da cirurgia, da radioterapia, de melhores condições de suporte clínico e ao surgimento de grupos cooperativos de pesquisa, com levantamento de dados que avaliam o melhor esquema quimioterápico para cada tumor, possibilita hoje que cerca de 70% das crianças com câncer sejam curadas, não sendo mais o câncer considerado uma sentença de morte. Entretanto, apesar dos grandes avanços obtidos no tratamento oncológico, mais de 2000 crianças e adolescentes morrem por ano devido a essa doença, que ocorre com maior freqüência por volta dos 2 ou 3 anos de idade e a partir dos 9 anos de idade.

Boa Vida – O que diferencia os tumores pediátricos daqueles apresentados nos adultos?

Dra. Loretta Oliveira – Os tumores na criança crescem mais rapidamente e são mais agressivos. Em compensação, são mais sensíveis ao tratamento quimioterápico, o que nem sempre ocorre com os tumores no adulto. A medula óssea, por exemplo, por ser mais jovem, tem excelente tolerância e melhor resposta ao tratamento. Quanto à radioterapia, mesmo sendo muito eficiente, a sua utilização é mais criteriosa nas crianças, diminuindo a quantidade e a dose total de radiação, para minimizar os efeitos tardios da irradiação em uma criança em desenvolvimento e em crescimento, evitando deformidades ósseas, deficiência no crescimento e outros problemas. É importante ressaltar ainda que muitos tumores que ocorrem no paciente adulto não acontecem na faixa etária pediátrica, como é o caso, por exemplo, dos carcinomas de mama, pulmão e outros, que são tumores em que a prevenção é de fundamental importância para detecção precoce, o que não ocorre nos tumores pediátricos.

Boa Vida – Como os tumores mais freqüentes se apresentam na infância?

Dra. Loretta Oliveira – São várias as formas de apresentação dos tumores malignos na infância, sendo muitas vezes de difícil diagnóstico em seu estágio inicial, já que muitos sinais e sintomas ficam escondidos em outros sintomas que ocorrem com freqüência na infância. Apesar de serem raros, é importante que o pediatra não se esqueça da existência do câncer na infância, pois é isso que permite o diagnóstico precoce da doença e o aumento na chance de cura desses pacientes. Muitos desses tumores podem ser diagnosticados através de uma boa história clínica e exame físico bem feito.

A leucemia linfocítica aguda é a doença maligna mais comum na infância, correspondendo a cerca de 23% dos casos de câncer nessa fase. A leucemia é um câncer da medula óssea, órgão que fica dentro dos nossos ossos, popularmente conhecido como “tutano”, e que é responsável pela produção do nosso sangue. Na leucemia os glóbulos brancos (leucócitos) não cumprem o seu ciclo normal e permanecem imaturos dentro da medula óssea, congestionando o local, que passa a produzir sangue deficiente de glóbulos brancos, vermelhos e plaquetas. Com isso, o organismo da criança não consegue defendê-la dos quadros infecciosos graves, além de ficar mais suscetível a anemias e sangramentos. A dor surge dentro dos ossos, em função da expansão da medula, que está com o acúmulo de células doentes. A criança se apresenta com sinais de palidez, sangramento gengival, manchas avermelhadas (equimoses), febre diária, aumento dos gânglios linfáticos e do volume abdominal (aumento do baço e do fígado) e dor nas pernas.

O tumor de Wilms (nefroblastoma) é o câncer renal mais freqüente na infância. É comum que o pedriatra ou os pais o descubram ocasionalmente durante o exame clínico ou no banho, quando há uma massa na barriga que pode ser apalpada, e que aumenta de volume. A criança também pode apresentar sangramento na urina. Outros sintomas e sinais são dor abdominal e aumento da pressão arterial, sendo que na maioria das vezes a criança mantém o estado geral preservado. É o tipo de tumor abdominal mais comum em crianças menores de 4 anos de idade. A combinação de cirurgia radical, quimioterapia e radioterapia proporcionam importante aumento na sobrevida e chance de cura desses pacientes.

O neuroblastoma é um câncer do sistema nervoso simpático, sendo mais encontrado nas glândulas supra-renais, localizadas sobre cada rim. Ocorre com maior freqüência em crianças menores de 5 anos de idade, com grande prevalência em menores de 2 anos de idade. O diagnóstico precoce de um neuroblastoma não é fácil, geralmente ocorrendo aumento do volume abdominal e dor associada. Pode ocorrer dor óssea devido à presença de metástases ósseas. Anemia é freqüente pela infiltração da medula óssea. A presença de nódulos subcutâneos e aumento do fígado podem ocorrer na presença de metástases para pele e fígado respectivamente. O prognóstico da doença depende muito se há metástases ao diagnóstico, a histologia do tumor e a idade do paciente. Em crianças menores de um ano de idade, com tumores mais diferenciados, melhor é o prognóstico.

Osteossarcoma é o tumor ósseo que ocorre com maior freqüência em crianças maiores de 10 anos e geralmente acomete a região do joelho. As causas do desenvolvimento da doença em adolescentes ainda não foram bem estabelecidas. A criança sente dor no local acometido, que piora de intensidade com a evolução da doença. Nesses casos, ainda há aumento do volume do local atingido. A resposta ao tratamento do paciente depende do tamanho da lesão e à presença ou não de metástases no pulmão ou ossos, principais locais de disseminação do tumor. O paciente com doença localizada, sem metástases, tem chances de sobrevida em 5 anos, em torno de 60%.

O tumor do Sistema Nervoso Central é de grande importância na pediatria oncológica, pois se trata do segundo tipo de câncer mais freqüente na infância. Os sintomas clínicos no paciente dependem da localização do tumor e podem se apresentar com dor de cabeça, que geralmente acorda o paciente de madrugada, e vômitos matutinos, sinais que denunciam o aumento da pressão intracraniana. Pode ocorrer também diminuição da força ou paralisia dos membros ou paralisia facial. Esse tipo de tumor pode se manifestar também com crises convulsivas, que devem ser investigadas sempre na primeira crise, através de exames de imagem, mesmo que exista história de convulsão em antecedentes familiares. Na grande maioria dos tumores cerebrais o tratamento consiste na ressecção cirúrgica completa do tumor, associada, se possível, à quimioterapia e à radioterapia.

Boavidaonline.com.br | Dra. Loretta Oliveira | Câncer PediátricoBoa Vida – Como é o tratamento e a recuperação biológica de uma criança com câncer? É possível recuperar a qualidade de vida?

Dra. Loretta Oliveira – O tratamento depende do tipo de tumor e da extensão da doença. Na grande maioria, envolve a quimioterapia endovenosa, o controle cirúrgico e, em alguns casos, a radioterapia. A criança tem excelente tolerância e respeito ao tratamento, que sempre busca a cura, com a qualidade de vida. Portanto, a criança deverá ser acompanhada pelo oncologista pediátrico, por muitos anos após o término do tratamento, para que se faça uma pesquisa de toxicidades tardias, secundárias ao tratamento, que podem levar a distúrbios hormonais, à infertilidade, ao atraso no crescimento, no aprendizado e a outros problemas. A preocupação com o futuro das crianças com câncer está no aumento da sobrevida desses pacientes e na busca de um indivíduo saudável que possa constituir família e se inserir no meio sócio-econômico.

Boa Vida – O tratamento exige equipe multidisciplinar?

Dra. Loretta Oliveira – Sim. Para cuidar de uma criança com câncer é indispensável a presença de uma equipe multidisciplinar. O paciente necessita de profissionais da odontologia especializada na área para prevenir lesões futuras na dentição secundária à quimioterapia, para tratamento de mucosites e outros problemas bucais, da psicologia, pois é muito importante trabalhar o lado emocional da família e do paciente durante o tratamento. Não menos importantes são os profissionais da nutrição, da fisioterapia, da fonoaudiologia e da assistência social para que o tratamento seja bem sucedido.

Boa Vida – Quais são os aspectos sociais da doença que devem ser levados em consideração?

Dra. Loretta Oliveira – O diagnóstico de câncer é sempre angustiante para toda a família, pois vai despertar o medo de não se obter a cura e da morte. Entretanto, a criança, na grande maioria das vezes, se adapta bem ao tratamento, não sei se pela sua inocência ou se pela necessidade. O trabalho da equipe de psicologia é fundamental para dar suporte aos pacientes e seus familiares. O pensamento positivo e a aceitação da doença ajudam a superar o tratamento e a torná-lo menos sofrido. A presença da mãe ou da pessoa mais próxima da criança transmite segurança. Toda criança com câncer tem direito a acompanhante independente da idade ou condição social. As casas de apoio permitem que pacientes de outras regiões possam ser tratados em serviços especializados. Durante o tratamento, é preciso tentar deixar a criança viver a vida normalmente. Entretanto, como o paciente necessita de retornos e internações freqüentes, as atividades escolares ficam prejudicadas, mas existem, em serviços de tratamento do câncer, profissionais especializados na área de pedagogia que tentam dar continuidade aos estudos desses pacientes durante o tratamento.

Boa Vida – Quando o tratamento é bem sucedido, é possível ter certeza de que o câncer foi curado?

Dra. Loretta Oliveira – Até 5 anos depois do tratamento, não se pode falar em cura, pois há risco de a doença voltar. Mas, como foi dito no início, as possibilidades de cura são em torno de 70% e a criança consegue se inserir na sociedade, ter uma vida normal e sem restrições.
Como não há prevenção para o câncer infantil, o diagnóstico precoce depende de uma boa avaliação do pediatra, já que com um exame fisico bem feito podem ser detectadas massas abdominais, alterações neurológicas ou outros sinais característicos do câncer pediátrico. É preciso lembrar que o câncer na criança, apesar de ser raro, é uma realidade e deve ser sempre investigado em consultas pediátricas de rotina.

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