Distúrbios alimentares, com a Psiquiatra Valéria Avilla

Dra. Valéria Avilla – Psiquiatria, Psicanalista e Escritora – CRM – GO 6174

Ao longo da vida moderna, estressante como é, a doença mental é cada dia mais frequente, por isso mesmo, há extrema necessidade de quebrar tabus quanto ao tratamento psiquiátrico. Uma dessas doenças merece destaque: quando há extrema preocupação com o que se come e com o peso, algo não vai bem. Os distúrbios alimentares atualmente são muito frequentes: anorexia, bulimia nervosa e compulsão alimentar precisam ser tratadas o quanto antes. Veja na entrevista da psiquiatra e escritora Valéria Avilla:

Come – se, com muita culpa, aqueles que são portadores de Bulimia. Os vômitos, depois das refeições são frequentes. 

Aurélia Guilherme – Como é o processo de desenvolvimento de um distúrbio alimentar?

Dra. Valéria Avilla – Os distúrbios ou transtornos alimentares se desenvolvem pela associação de vários fatores: começando por uma predisposição genética, que poderá ser desencadeada por um estresse crônico mal elaborado – exemplos comuns seriam: grande pressão no ambiente de trabalho ou vida conjugal insatisfatória. Até a associação da genética com doenças psíquicas anteriores ao transtorno, como: ansiedade, depressão e psicoses. Lembrando que, poderá ainda, não haver uma predisposição genética, mas um comportamento alimentar muito alterado.

Erros do metabolismo também são possíveis, mas nunca vi um caso em que não houvesse um componente psíquico digno de tratamento.

Esses fatores desencadeadores vão mudando a rotina alimentar que vai se perpetuando num padrão de alimentação cada vez mais inadequado. Geralmente, essas doenças que são secundárias às insatisfações, estresses e doenças psíquicas crônicas vêm com uma necessidade psíquica de compensação e, como não compensam nada, o compulsivo come cada vez mais e o anoréxico cada vez menos, até o colapso do organismo.

Aurélia Guilherme – No mundo moderno, com tantos problemas, a falta de apetite ou a ansiedade de comer podem ser naturais. Como reconhecer, quando esses sinais se tornam sintomas de um distúrbio alimentar?

Dra. Valéria Avilla – Diria que comum sim, mas não natural. Não precisamos adoecer para pensarmos em procurar orientação para um padrão de alimentação mais saudável.

Se você come mal, já justifica procurar um nutricionista. Por que esperar?  Mas, se você come mal e é ansioso, ou está depressivo ou em conflito com o seu modo de viver, busque um nutricionista, um psiquiatra e um psicoterapeuta.

A falta de apetite ou a compulsão alimentar também são sintomas de várias doenças clínicas, tipo distúrbios endocrinológicos, como o diabetes, por exemplo. No entanto, não esqueça essa máxima de que os médicos não costumam contar: toda doença clínica tem origem no emocional e toda doença psíquica tem origem na insatisfação, na não realização do seu potencial.

A perda de peso nunca é suficiente. Pacientes com Anorexia nervosa têm distorção da imagem e correm sérios riscos de saúde.

Aurélia Guilherme – Distúrbios Alimentares podem afetar qualquer um?

Dra. Valéria Avilla – Caso você comece a comer inadequadamente sim, a única diferença é o tempo que isso irá levar para iniciar prejuízos sérios em cada indivíduo.

Infelizmente, na maioria das vezes, as pessoas esperam o prejuízo para pedir orientação profissional. E por que isso? Porque esses transtornos são um grande tapa buraco para não se olhar para o emocional. Se eu transformo meu corpo para a obesidade e para magreza, me distraio com isso e fujo do psíquico.

Aurélia Guilherme – Nos fale um pouco sobre cada um desses transtornos?

Dra. Valéria Avilla – Bem, já é lugar comum que, pessoas que sofrem de anorexia nervosa, não se alimentam, não conseguem se perceber magras e, assim, continuam se mantendo em dietas de faquir. Mas, o que nem todo mundo sabe é que, muitas dessas pessoas, entram em estados psicóticos e correm risco de suicídio.

Bulimia nervosa é uma doença marcada pelo hábito de comer, se culpar e fazer algo em seguida para não engordar, como provocar vômitos ou usar laxantes, por exemplo. É um transtorno psíquico com forte influência e causalidade de profissões ligada à estética – cerca de 80% são modelos, atrizes ou têm atividades que necessitam de um controle desumano do peso.

Compulsão Alimentar está mais ligada à uma falta de controle, do que à um resultado: estar magra ou estar obesa. A ansiedade aqui está intensamente presente. Nem sempre os compulsivos são obesos e às vezes desenvolvem bulimia.

O que estes transtornos têm em comum, além das causas psíquicas? A dinâmica familiar. Geralmente esses pacientes têm mãe ou pai que já tiveram um transtorno alimentar ou obesidade, ou, uma grande preocupação e vigilância com o peso dos filhos – para mais ou para menos. Tem pais que superalimentam os filhos desde bebê.

Aurélia Guilherme – Esses distúrbios podem coexistir com outras doenças, como a depressão, o abuso de substâncias, ou a ansiedade?

Dra. Valéria Avilla – Como disse anteriormente, é praticamente impossível que não haja uma delas. O abuso de substâncias pode causar inapetência, na maioria das vezes, mas também pode estar associado como um comportamento compulsivo e assim levar à obesidade.

A Compulsão Alimentar nutri extrema ansiedade. A falta de controle alimentar é o pilar do problema.

Aurélia Guilherme – Um distúrbio alimentar pode passar despercebido por um longo período de tempo?

Dra. Valéria Avilla – Sim, e esse é um grande problema para o encaminhamento ao tratamento. Esses transtornos tem um componente psicológico de fuga e de negação muito intensos, o que faz que boicotem a possibilidade de pedir ajuda.

Aurélia Guilherme – Por que a negação dessas doenças atrasa tanto o diagnóstico?

Dra. Valéria Avilla – Esses pacientes muitas vezes têm noção do comportamento inadequado, mas por vergonha ou até por prazer – pensam que podem controlar seu peso, quando na verdade, não controlam nada, nem esse comportamento.

Aurélia Guilherme – Que tipo de problemas físicos e riscos de um quadro grave pode ter um paciente com algum desses distúrbios?

Dra. Valéria Avilla – No caso da anorexia, grave alteração hormonal, com amenorreia, que é suspensão da menstruação, desnutrição, perda de tecido muscular, fraqueza e descalcificação óssea, hipoglicemia, convulsões e outros. Na bulimia, perda de eletrólitos pelo vômito e provocação de diarreia, levando à distúrbios hidroeletrolíticos. Ulceras esofagianas por queimação pelo líquido estomacal, através de vômitos frequentes, até hemorragias e laceração de esôfago.

Aurélia Guilherme – O que envolve um tratamento para os distúrbios alimentares? 

Dra. Valéria Avilla – O tratamento para transtornos alimentares é multidisciplinar. Alcançamos pouco sucesso se atuamos sem parceria. Os profissionais envolvidos seriam um nutricionista, um psiquiatra, um psicoterapeuta, um endocrinologista e um educador físico. Ter um grupo afinado com quem você possa contar é o ideal. Porém, a ordem de procura é diversa. É fundamental que cada um desses profissionais se empenhe em encaminhar o paciente para os outros colegas para que haja sucesso no tratamento – avaliando qual são as prioridades e o local de tratamento necessário. Casos clinicamente graves requerem internação hospitalar, às vezes até UTI. Quadros que psicotizaram, a clínica psiquiátrica é uma solução de segurança. Pacientes que colaboram melhor, a psicoterapia é altamente eficaz. Em alguns casos, exercícios físicos virão num segundo tempo, porém, são de extrema importância ao longo do tratamento.

Quanto ao aconselhamento familiar, ele é imprescindível, principalmente com crianças e adolescentes. Há de se esclarecer e corrigir condutas familiares que mantêm os sintomas e impedem um resultado satisfatório.

 

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