Doença de Parkinson, com o Neurologista William Luciano de Carvalho

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A Doença de Parkinson é um mal crônico e seu prognóstico era, até pouco tempo, ligado à ideia de uma vida de limitações e sofrimento. Porém, com os constantes avanços da medicina, notadamente na última década, os sintomas do Parkinson já podem ser controlados e minimizados.

Já é possível garantir uma vida com mais qualidade e mais funcionalidade aos pacientes, o que depende, em grande parte, do apoio e do acompanhamento familiar. É o que conta, em entrevista ao Boa Vida Online, o Neurologista William Luciano de Carvalho, especialista em Distúrbios do Movimento, membro titular da Academia Brasileira de Neurologia, coordenador do Ambulatório de Parkinson e Distúrbios do Movimento do Hospital Geral de Goiânia (HGG) e preceptor da residência de Neurologista do HGG. Confira:

Doença de Parkinson Neurologista William Luciano de Carvalho Goiânia

Dr. William Luciano de Carvalho, Neurologista, CRM – GO 8959.

Boa Vida Online – A Doença de Parkinson carrega todo um estigma de doença incapacitante. No entanto, a Medicina é uma ciência em constante avanço. O diagnóstico do Mal de Parkinson, hoje, deve ser recebido com menos peso?

Dr. William Luciano de Carvalho – Certamente! O primeiro medicamento realmente eficaz para o tratamento da Doença de Parkinson surgiu na década de 1960, algo recente em termos de história da medicina. Desde então, na última década, vários foram os avanços, tanto no entendimento da doença em si, quanto nas opções terapêuticas. Estes avanços possibilitaram uma revolução em termos de melhoria da qualidade de vida dos portadores e também no aumento da expectativa de vida deles. Não é mais verdadeira a premissa de que o diagnóstico da Doença de Parkinson esteja vinculado à uma vida de limitações e de sofrimento. O tratamento atual proporciona, sim, uma vida plena e digna!

Boa Vida Online – Qual o papel da família nesse sentido?

Dr. William Luciano de Carvalho – A família tem, como em qualquer outra doença, um papel primordial e, diria, até de certo protagonismo neste caso, uma vez que a família é o primeiro e principal ponto de apoio aos muitos desafios a serem enfrentados, inicialmente, na aceitação da doença e, posteriormente, nas dificuldades que qualquer doença impõe aos seus portadores. Estímulo à adesão ao tratamento, à prática de atividade física e, mesmo a se manter ativo do ponto de vista social, são algumas das tarefas dos familiares e/ou cuidadores de portadores da Doença de Parkinson.

Boa Vida Online – É possível conter o avanço da doença e garantir uma maior qualidade de vida ao paciente?

Dr. William Luciano de Carvalho – A Doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa progressiva e, infelizmente, ainda não existe um tratamento que venha proporcionar sua cura ou mesmo conter sua progressão. É, portanto, uma doença crônica. Isto não quer dizer que seus sintomas não possam ser controlados e minimizados. Na verdade, atualmente se consegue um controle bastante adequado de seus sintomas, de modo a proporcionar uma vida com qualidade e funcionalidade. Tudo depende do quão empenhados estão pacientes e familiares. E neste sentido, a atividade física é comprovadamente a melhor forma de reduzir a velocidade de progressão desta doença.

Boa Vida Online – Como é feito o diagnóstico da Doença de Parkinson?

Dr. William Luciano de Carvalho – O diagnóstico desta condição é clinico! Não existe nenhum exame laboratorial (de sangue) ou de imagem (tomografia ou ressonância) capazes de fazer este diagnóstico. O neurologista é o médico mais capacitado para detectar a doença e fazer o tratamento desta condição. Alguns exames são necessários, no sentido de descartar doenças que se assemelham em muitos aspectos à Doença de Parkinson. Mas o diagnóstico é firmado pela anamnese durante a consulta e o exame neurológico realizado pelo neurologista no consultório. Assim, é importante frisar que, nem todo tremor significa Doença de Parkinson e, nem todo portador de Doença de Parkinson apresenta tremores. Existem muitos medicamentos e doenças que podem provocar sintomas parecidos com àqueles presentes na Doença de Parkinson e que, portanto, não são Parkinson.

Boa Vida Online – Quais os sinais e sintomas devem ser observados, e a partir de que idade?

Dr. William Luciano de Carvalho – A Doença de Parkinson, por ser uma doença neurodegenerativa, acomete principalmente indivíduos com idade acima de 50 anos. Mas, mesmo indivíduos com idade inferior a essa, podem ser portadores desta doença, sendo que, até mesmo antes de 20 anos, os sintomas podem estar presentes, como no caso do Parkinsonismo Juvenil.

Os quatro sintomas principais da Doença de Parkinson são: tremores, lentidão dos movimentos, desequilíbrio e rigidez muscular. Porém, vários outros sintomas podem acontecer nesta doença, tais como distúrbios do sono, redução do olfato, intestino preso, alterações urinárias, dores, depressão, etc.

Boa Vida Online – A Doença de Parkinson tem uma característica genética? Quem pode desenvolver a doença?

Dr. William Luciano de Carvalho – Existem sim formas genéticas hereditárias. São casos muito menos frequentes, raros realmente. Vários genes já foram relacionados ao surgimento desta condição. Porém, na maioria dos casos, não há ainda uma causa genética, nem mesmo outra causa já identificada, de modo que, a Doença de Parkinson é, ainda à exemplo do Alzheimer e tantas outras doenças neurológicas, considerada uma condição sem uma causa definida. A idade é ainda um fator de risco, ou seja, quanto mais envelhecemos maior a chance desta doença surgir.

Doença de Parkinson características da doença de parkinson

O Parkinson se desenvolve quando as células nervosas do cérebro são destruídas e deixam de produzir gradualmente a dopamina. Com isso, o paciente sofre a perda da função muscular.

Boa Vida Online – Fatores ambientais podem colaborar para o surgimento da doença?

Dr. William Luciano de Carvalho – Existem sim, alguns fatores ambientais implicados no surgimento de sintomas da Doença de Parkinson, mas que neste caso, não são chamados de Doença de Parkinson, mas sim Parkinsonismo Secundário. Vários medicamentos, principalmente aqueles popularmente usados, grande parte das vezes sem prescrição médica, para “labirintites”, são no nosso meio, os principais causadores de Parkinsonismo Medicamentoso. Exposição à venenos, como herbicidas e inseticidas, também pode levar a quadros de Parkinsonismo. Existe, assim, uma lista enorme de medicamentos e toxinas que podem causar o problema.

Boa Vida Online – Com que rapidez a doença progride?

Dr. William Luciano de Carvalho – A progressão da doença vai depender de vários fatores, como idade, a causa do Parkinsonismo, do tipo de tratamento, da aderência ou não ao tratamento proposto. Em se tratando de Doença de Parkinson, e não de Parkinsonismo Secundário, um tratamento correto, faz com que os sintomas sejam bem controlados, aumentando o tempo e a qualidade de vida dos portadores.

Boa Vida Online – Como é feito o tratamento e acompanhamento da Doença de Parkinson?

Dr. William Luciano de Carvalho – Existem várias alternativas para o tratamento da Doença de Parkinson; não só medicamentos, como também tratamento não-farmacológico. A escolha do caminho ideal para cada indivíduo e em cada fase da doença é feita pelo médico neurologista, sempre com a participação do paciente e seus familiares. A fisioterapia, a terapia ocupacional, a fonoaudiologia, a psicologia e educador físico são imprescindíveis neste contexto. E, a escolha do momento correto para cada um destes profissionais fazer parte desse tratamento, será bem indicada pelo neurologista.

Doença de Parkinson tratamento marcapasso cerebral

Estimulação cerebral

Boa Vida Online – Quando o marcapasso cerebral é indicado? Como age?

Dr. William Luciano de Carvalho – A estimulação cerebral profunda, conhecida popularmente como “marcapasso cerebral”, consiste no implante de um eletrodo que irá estimular áreas específicas do cérebro. Não é uma cirurgia que cure ou paralise a evolução da Doença de Parkinson, nem mesmo um procedimento que eliminará a utilização das medicações. Ela é uma cirurgia que tem indicações bastante precisas, feitas pelo neurologista que acompanha o caso. Existem vários pacientes que apresentam condições que contraindicam sua realização e outros, que devem ser submetidos a este procedimento, para que se alcance um melhor controle de algum aspecto da doença.

Boa Vida Online – A partir dessa cirurgia, o paciente se recupera dos tremores e ganha mais independência?

Dr. William Luciano de Carvalho – O tremor, assim como os outros sintomas e complicações da doença, pode sim ser um motivo para se indicar esta cirurgia. Como dito, esse procedimento tem o intuito de amenizar alguns (e não todos) sintomas da doença, que a medicação utilizada não conseguiu controlar de forma adequada. Isto não quer dizer que ela substitua a medicação, sendo uma alternativa complementar ao tratamento clínico.

Boa Vida Online – Quando a doença se apresenta em pessoas mais jovens, o tratamento é semelhante? Esses casos são mais graves?

Dr. William Luciano de Carvalho – Os pacientes mais jovens constituem um grupo de maior risco para desenvolver Parkinsonismo Genético, secundário, ou mesmo, outras doenças neurodegenerativas, que se assemelham à Doença de Parkinson, mas que não são propriamente a Doença de Parkinson. Sendo assim, devem ser submetidos à uma avaliação cuidadosa neste sentido, com a realização de exames complementares, inclusive. O tratamento desses pacientes é diferente daqueles que iniciam os sintomas após os 50 anos.

Boa Vida Online – Uma pessoa jovem, diagnosticada com Parkinsonismo, tem condições de continuar suas atividades de estudos e profissionais?

Dr. William Luciano de Carvalho – Sim! O tratamento hoje em dia, felizmente possibilita que, tanto pacientes jovens, como qualquer outro, tenham uma vida ativa, funcional e independente.

Boa Vida Online – Existem grupos de apoio à pacientes com Doença de Parkinson e aos seus familiares em Goiás?

Dr. William Luciano de Carvalho – Existem grupos de apoio que atuam, não somente em nível regional, mas também em nível nacional, tais como a Associação dos Portadores e Cuidadores de Doentes com Parkinson – Associação Brasil Parkinson (www.parkinson.org.br) e o Projeto Vibrar Parkinson.

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