Doenças Hipertensivas na Gravidez, com o doutor João Luiz Tarlé Rosa

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Problemas hipertensivos na gestação devem ser encarados com muita seriedade. Sete perguntas sobre hipertensão na gravidez para o Ginecologista e Obstetra João Luiz Tarlé Rosa:

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Dr. João Luiz Tarlé Rosa, Ginecologista e Obstetra, CRM – GO 7014

Boa Vida Online – O que são doenças hipertensivas na gravidez e qual a importância delas?

Dr. João Luiz Tarlé Rosa – O aumento da pressão arterial diagnosticado durante a gestação em mulheres que nunca haviam apresentado antes o problema é classificado como Doença Hipertensiva Específica da Gestação (DHEG). Esse é um problema bastante comum em grávidas e se apresenta de duas formas: como pré-eclâmpsia e como eclâmpsia. A pré-eclâmpsia é o aumento da pressão arterial, acompanhada da eliminação de proteína pela urina. Normalmente, essa complicação começa depois da 20ª semana de gravidez. Quando não tratada adequadamente, pode culminar na própria eclâmpsia, a reta final da doença, que se caracteriza pela pressão muito elevada, acompanhada de sintomas mais graves, como inchaço e convulsões. Nesse estágio da DHEG, a vida da mãe e a vida do bebê entram em risco. Há ainda a hipertensão crônica (pregressa) durante a gestação. Em cerca de 10% dos casos, a pré-eclampsia se associa à hipertensão crônica da gestante.
Além de serem as complicações mais frequentes na gestação, esses distúrbios são a principal causa de morte materna e perinatal e também causam complicações que limitam a qualidade de vida dos recém-nascidos sobreviventes aos danos da hipóxia (falta de oxigenação) perinatal, com consequências neurológicas desastrosas para a criança.

Boa Vida Online – Quais são as principais causas da hipertensão na gravidez e como é feito seu diagnóstico?

Dr. João Luiz Tarlé Rosa – Não há apenas uma causa específica para a hipertensão na gravidez. No entanto, sabe-se que o problema é resultado, entre outros problemas, da má adaptação do organismo materno à condição de gestante. Outros motivos são a alimentação desequilibrada, com a ingestão excessiva de sal e o sedentarismo. É aconselhado, mesmo durante a gestação, que a mãe pratique atividades físicas moderadas e modifique sua alimentação, reduzindo o sal, como forma de prevenção.
O diagnóstico é clínico e laboratorial e deve ser feito antes da 20ª semana de gestação para que comparações possam ser realizadas. A medida da pressão arterial precisa ser monitorada, respeitando os parâmetros de pressão diastólica (mínima) superior a 90 mmHg e da pressão sistólica (maxima) acima de 150 mmHg, além de pesquisar o edema (inchaço) e a dosagem de proteína na urina.

Boa Vida Online– Por que esses cuidados são tão importantes a partir da 20ª semana de gestação?

Dr. João Luiz Tarlé Rosa – Normalmente após a metade da gravidez desenvolve-se um aumento dos níveis de pressão e do edema (inchaço) principalmente nas mãos e nos pés e alguma perda de proteína pela urina (detectável em exames laboratoriais). A pré-eclâmpsia leve ou moderada evolui para pré-eclampsia grave, quando há aumento dos níveis de pressão arterial e da perda protéica urinária associada à diminuição da diurese (fluxo urinário), com evidente aumento de inchaço e de dores na parte alta do abdome. Também são consequências deste problema: a coloração roxa ou azulada da boca e das unhas, a diminuição do crescimento fetal, dores de cabeça e transtornos visuais (pontos brilhando na vista). Ao chegar a esse ponto, já é configurada a iminência de eclâmpsia, situação que merece tratamento emergencial. Quando aparecem as convulsões, é sinal de que já se trata de um quadro de eclâmpsia e, neste caso, devemos excluir outras doenças convulsivas como a epilepsia.

14078058_xxlBoa Vida Online – O que é a síndrome de HELLP?

Dr. João Luiz Tarlé Rosa – É uma situação clínica extremamente grave que ocorre em casos de pré-eclâmpsia e eclâmpsia. Temos sintomas e sinais associados à hemólise (diminuição das plaquetas e alteração nas enzimas hepáticas). O termo HELLP foi inicialmente utilizado em 1982, usando-se as iniciais Hemólise Elevadas Liver (testes de função hepática elevados) e Low (queda) Plaquetas. O tratamento da síndrome de HELLP é a correção dos distúrbios maternos, permitindo que a gestação seja interrompida de forma mais segura possível, independente da idade gestacional. Esta síndrome está associada a um mal desfecho materno e fetal, com complicações maternas para a mãe, como edema agudo de pulmão, falência cardíaca, insuficiência renal, coagulação intravascular disseminada com hemorragias importantes, ruptura do fígado e morte materna.

Boa Vida Online – Como evolui a hipertensão crônica na gestação?

Dr. João Luiz Tarlé Rosa – A hipertensão na gestante é crônica quando ocorre antes de 20 semanas de gestação, quando já havia sido diagnosticada previamente a gestação e quando a hipertensão não desaparece até 6 semanas após o parto. Ela pode ser essencial (quando não se reconhece a causa), de origem renal, vascular (estreitamento que ocorre na aorta, o maior vaso do corpo humano responsável por levar sangue rico em oxigênio para todo o organismo.) e endócrina (doenças da suprarrenal). É importante conhecer os níveis pressóricos antes da gestação. Este diagnóstico é fácil de ser realizado pelo seu médico. Quanto à gravidade, esta pode ser classificada como complicada (com perda da função renal ou cardíaca) ou pré-eclâmpsia superajuntada (associação de sintomas da Hipertensão Arterial Crônica e da Doença Hipertensiva Específica da Gestação).

Boa Vida Online – Existe um perfil de mulheres que desenvolvem a hipertensão durante a gestação?

Dr. João Luiz Tarlé Rosa – Mulheres que engravidam tardiamente costumam ter maior chance de desenvolver o problema – aproximadamente 14% delas. Pacientes com histórico familiar de pré-eclâmpsia e eclâmpsia, ou pré-eclâmpsia em gestação anterior, com aumento de massa trofoblástica (tecido que constitui a parte da placenta derivada do embrião) também estão sujeitas ao problema.

Boavidaonline.com.br | Hipertensão na gravidezBoa Vida Online – Como é feito o tratamento das síndromes hipertensivas da gestação?

Dr. João Luiz Tarlé Rosa – Uma vez identificado os fatores de predisposição e de Doença Hipertensiva Específica da Gestação (DHEG), inicia-se tratamento para prevenção da pré-eclâmpsia. Nessa fase, pode ser feito o uso de aspirina em baixas doses e suplementação de cálcio, além de dieta com pouco sal e muita proteína. Uma vez confirmado o diagnóstico de pré-eclâmpsia, a paciente deve permanecer em repouso, deitada sempre do lado esquerdo – o que favorece a circulação no organismo materno e na circulação sanguínea do útero. O tratamento pode incluir ainda a sedação leve com finalidade de diminuir a reação vascular originária de fatores emocionais. O uso de hipotensores (remédios da hipertensão) será direcionado dependendo do quadro clínico da paciente, de maneira individualizada. Já o tratamento da eclâmpsia, prevê a internação em regime de urgência, incluindo o tratamento anticonvulsivante, a interrupção da gestação e o tratamento para os distúrbios metabólicos e respiratórios (devido ao acometimento de múltiplos órgãos). Muitos casos evoluem para tratamento em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
É preciso que a paciente faça o pré-natal da maneira correta e siga todas as orientações médicas, para que o diagnóstico das doenças hipertensivas na gravidez seja feito o quanto antes. O sucesso do tratamento depende diretamente de um diagnóstico precoce.

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