Excesso de tecnologia: Quando há falta de limites na infância e adolescência, com o Pediatra Fábio Pessoa

Dr. Fábio Pessoa, Pediatra Goiânia

Dr. Fábio Pessoa, Pediatra – CRM – GO 9861

Não há como pensar em um mundo sem tecnologia digital. Quantos benefícios ganhamos com a chegada da Era Tecnológica. Porém, como tudo na vida, há dois lados da verdade. Nesse caso, vamos falar sobre as crianças e os adolescentes e a excessiva exposição aos eletrônicos: TV, computadores, videogames e, o que dizer dos celulares? Existem crianças desenvolvendo a LER (lesões por esforço repetitivo), por permanecerem, quase que o tempo todo digitando no whastapp! Essa falta de limites e de restrição vem causando dor de cabeça para os pais e levantando questionamentos entre especialistas do mundo inteiro. Nosso consultor em Pediatria, doutor Fábio Pessoa, um dos autores do site Infância e Comportamento faz um alerta, na seguinte entrevista:

excesso de tecnologia infância Aurélia Guilherme – A Era Digital globalizou o mundo, abriu as fronteiras de todos os povos, com a rapidez da comunicação e inteligência eletrônica. Por algum motivo, todos estão em frente a alguma tela, TV, computador, videogames ou celulares. Começando pelo positivo, como os jogos podem auxiliar as crianças no processo de desenvolvimento?

Dr. Fábio Pessoa – Andrew K. Przybylsk” , pesquisador da Universidade de Oxford, Inglaterra, desenvolveu um estudo para avaliar os efeitos positivos e negativos em relação ao comportamento de crianças e adolescentes, decorrentes da exposição aos jogos de videogames ou de computadores.

Basicamente, ele queria saber o limite de tempo máximo de exposição aos equipamentos eletrônicos. Para isso, 4 grupos foram separados, com base no tempo em que cada participante se mantinha jogando durante o dia. O primeiro grupo jogava menos do que 1 hora, o segundo grupo entre 1 e 3 horas, o terceiro grupo por mais que 3 horas por dia e o quarto grupo não jogava.

Foram acompanhados 4.899 jovens entre 10 e 15 anos de idade, que viviam no Reino Unido. Um bom número, não?

Só um dado preocupante que não podemos deixar de compartilhar: 1,5% dos jovens que participaram da pesquisa jogavam mais do que 7 horas por dia. Foram aplicadas escalas padronizadas e validadas mundialmente para se avaliar questões relacionadas ao comportamento de cada participante. O resultados inimagináveis:

Em comparação com os não jogadores, as crianças que normalmente passam menos tempo jogando (até 1 hora), apresentaram melhor comportamento social, maior índice de satisfação com a vida e menores níveis de problemas de conduta, de relacionamento, de hiperatividade e de sintomas emocionais.

Esse padrão de resultados apoia a ideia de que o jogo eletrônico tem funções benéficas semelhantes às formas tradicionais de jogos, uma vez que funcionam como desafios cognitivos e sociais. Mas, concordamos com o autor e entendemos que nem todas as crianças respondem da mesma maneira. Fatores relacionados à própria neuroarquitetura cerebral e à motivação podem influenciar positivamente algumas crianças mais do que outras.

Ah, então quer dizer que devo deixar meu filho jogar videogame ao menos uma hora por dia com a certeza de que ele irá se desenvolver melhor?A resposta ainda é: não sabemos. Vários estudos vêm sendo desenvolvidos para chegarmos a uma melhor conclusão.”

Aurélia Guilherme – Sim, mas o que dizer dos cientistas que apontam  os jogos, como estimulantes de conexões neurais importantes?

Dr. Fábio Pessoa – Sim, há outra frente de trabalho amplo, em que cientistas têm desenvolvido games, como forma de se estimular crianças que possuem diversos problemas psíquicos, como, por exemplo, jogos desenvolvidos para crianças portadoras do Transtorno do Espectro do Autismo, desenvolvido por um grupo de pesquisadores europeus, com intervenção focada em desenvolvimento e comportamento. Os jogos foram aplicados, em parceria com o terapeuta, em 10 crianças durante a pesquisa e a resposta mensurada e comparada com uma pontuação preestabelecida.

Os resultados foram maravilhosos!!!

Houve melhora na imitação e na atenção compartilhada, despertou-se o interesse, nas crianças avaliadas, para jogar com outra pessoa e, não, individualmente e, melhorou a performance geral de atenção e no interesse em discutir seu desempenho.

Partindo do pressuposto de que essa nova geração de jovens tem se interessado muito pelo desenvolvimento de novas tecnologias, certamente projetos promissores deverão surgir muito brevemente.

Vimos, então, que estar exposto a jogos pode ser interessante, por um tempo curto ou quando mediado por um adulto, para algumas crianças.

obesidade infantilAurélia Guilherme – O problema é esse: o tempo curto. Muitas famílias não conseguem impor e respeitar limites de tempo frente aos eletrônicos. Hoje, vemos o aumento da obesidade entre essas crianças e adolescentes. O tempo de tela é o gatilho para o sedentarismo e para os snacks gordurosos e cheios de sódio. Qual a sua opinião sobre isso?

Dr. Fábio Pessoa – A obesidade foi, sem dúvida, o primeiro malefício a incitar uma acalorada discussão científica sobre o tempo de exposição, por parte de crianças e jovens, aos avanços tecnológicos. É evidente que ninguém pode colocar o excesso de tempo em que a criança fica à frente da TV e de eletrônicos como fator único, que justifique a situação de sobrepeso e de obesidade em que vivem um número expressivo de crianças ao redor do mundo. Recentemente, pesquisadores chineses associaram o tempo excessivo gasto em atividades acadêmicas fora do horário escolar, os problemas com o sono e a inatividade física, além dos níveis mais altos de visualização de tela, com a obesidade infantil naquele país.

E pensando em obesidade, além da quantidade de horas frente à tela, sem fazer atividade física alguma, o conteúdo pode incitar ao consumo inadequado de alimentos.

Tenta-se restringir as propagandas que aparecem para as crianças, mas elas seguem muito vulneráveis. São brinquedos associados a lanches, sorrisos estampados em biscoitos recheados, cereais que dão a força e a energia de um grande felino…Com certeza, vocês sabem do que estou falando. Se não sabem, experimentem assistir uma hora de TV com seus filhos e sairão dali com outros conceitos sobre “alimentação saudável”.

Aurélia Guilherme – Outro agravante que está preocupando os pais é a restrição ao sono, que as próprias crianças e adolescentes se impõem, para permanecerem ainda mais tempo frente às telas. O que você tem a dizer sobre o sono e o tempo de tela?

Dr. Fábio Pessoa – É fato, a sociedade moderna dorme menos. E as crianças tem sido bastante afetadas com essa mudança de hábito. O excesso de exposição da criança à essa era digital, segundo os pesquisadores da Universidade de Vermont, Estados Unidos, interferem tanto no tempo, quanto na qualidade do sono. Três são os mecanismos apontados, como causadores de tamanho prejuízo:

O primeiro fator – Ambiental, já que o engajamento em excesso às atividades frente à tela atrasam o início do sono e interferem no tempo total de repouso. Muitos pais queixam-se de que não conseguem fazer os filhos desligarem a TV ou são verdadeiramente “enrolados” pela conversa sedutora de suas crias.

O segundo fator: Psicossocial, uma vez que alguns conteúdos podem interferir no momento em que a criança precisa se deitar ou manter-se dormindo, como cenas de violência ou de terror, dependendo da fragilidade individual de cada um, ou mesmo, em determinadas faixas etárias, podem tirar a tranquilidade de algumas crianças.

O terceiro fator: Exposição à luminosidade dos eletrônicos, como um fator biológico que interfere no próprio ciclo circadiano (sono e vigília) da criança. Sabemos que um sono eficiente é atingido na ausência de luminosidade. Estar exposto duas horas antes do sono, à luminosidade dos tablets, por exemplo, reduz a produção da melatonina e interfere sobremaneira no ciclo de sono e de vigília da criança.

Aurélia Guilherme – O tempo de tela também tira a criança e o adolescente das brincadeiras coletivas e de contato com a natureza. A exposição de tempo excessiva, frente às telas, afeta o desenvolvimento da criança?

Dr. Fábio Pessoa – sim, nós sabemos que para um desenvolvimento neuropsicomotor saudável, a estimulação é a palavra de ordem. A partir do momento em que a criança, muito jovem (antes dos 18 meses de idade), deixa de ser estimulada de maneira criativa e deixa de se movimentar, por conta da fixação pela tela, instala-se inevitavelmente o prejuízo em relação ao seu desenvolvimento.

Quando lincamos estimulação e criatividade, falamos em conversar com a criança, em apresentar desafios e fazê-la buscar soluções, o que muitas vezes os programas de TV ou os vídeos não propiciam.

A criança precisa de outra pessoa para interagir e não de uma máquina que a seduza o tempo todo sem que ela possa interferir no conteúdo.

Um bebê em uma cadeirinha, com um tablet nas mãos, cercado por biscoitos, por horas e horas, certamente não vai alcançar os marcos de desenvolvimento, tal como seria, caso fosse devidamente estimulado. Mais e mais crianças têm apresentado atraso na linguagem pura e simplesmente por falta de estímulo.”

Outro problema que interfere no desenvolvimento é a ausência de atividade física. Toda criança precisa explorar o ambiente, usar todos os seus sentidos, para que o cérebro seja ser estimulado e novas conexões neurais sejam formadas e consolidadas.

Uma criança sentada a maior parte do tempo frente a um eletrônico, perde momentos preciosos para a consolidação de importantes funções cognitivas e executivas.

Aurélia Guilherme – Podemos relacionar problemas comportamentais inadequados naquelas crianças e adolescentes que permanecem mais tempo expostos aos agentes da era digital?

Dr. Fábio Pessoa – Sim, vamos enumerar alguns:

Pediatra Fábio Pessoa Goiânia Perda de foco ou de interesse nos estudos estão fortemente associados nesses casos. Não dá para imaginar uma criança que não se desliga do seu tablet estudando regularmente.

Outra questão comum no dia-a-dia envolve a realização de várias tarefas ao mesmo tempo. TV ligada, fones no ouvido, teclado a mil respondendo mensagens e um livro aberto. Não será possível produzir algo com qualidade assim.

Frustrações e irritabilidade quando perdem no jogo, ou simplesmente quando a rede de internet deixa de funcionar por segundos são cada vez mais visíveis. Verdadeiras explosões, inimagináveis e, por vezes, incontroláveis. Crianças e adolescentes não toleram pequenas frustrações e desenvolver essa “habilidade” é muito importante para um desenvolvimento saudável.

Esconder-se horas e horas atrás de um computador pode ser um sintoma de ansiedade ou de depressão. E isso tem nos preocupado muito! A dificuldade em se consolidar amizades reais e a dependência da aprovação no mundo online, elevam o componente de preocupação, de insegurança e de medo por parte principalmente de adolescentes.

Outra preocupação é a dependência. Dependência tal qual aquela já estudada por álcool, cigarro e por outras drogas. Jovens cada vez mais ligados aos seus jogos, que não saem de seu quarto, que mal se alimentam, que não vivem… E pais desesperados por ajuda, muitas vezes tardiamente.

Correr, pular, se equilibrar em um pé só, descobrir o seu limite ao tentar escalar um objeto são fundamentais para que a criança compreenda noções de espaço, envolvendo a memória, o planejamento e a orientação, por exemplo.”

Aurélia Guilherme – Os pais se sentem perdidos nesse universo eletrônico sedutor e não sabem como agir. Há alguma dica para auxilia-los  nessa tarefa?

Dr. Fábio Pessoa – Alguns pais podem ficar chateados com o médico, ou com o professor, ou mesmo com as entidades que lidam com os cuidados na infância, ao se sentirem invadidos, quando “alguém” tenta ditar a forma de educar seus filhos. Mas, não é essa a pretensão. Verdadeiramente não é! A intenção é identificar precocemente todo e qualquer prejuízo para o desenvolvimento da criança e apresentar soluções para tal.

Assim, baseadas em pesquisas confiáveis com aplicabilidade no dia a dia, a Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Brasileira de Pediatria vem atualizando as orientações quanto à exposição excessiva das crianças às mídias digitais. Vamos aqui abordar as recomendações das duas entidades para que os pais possam aplicá-las em casa e para que os professores reforcem-nas no ambiente escolar.

A primeira orientação diz respeito à idade mínima para que a criança tenha contato significativo com a era digital:

Pais e cuidadores devem evitar o contato com os meios digitais pelas crianças com menos de 18 meses de idade.

Até 1 ano e meio somente as chamadas videoconferências, com razoável frequência, estão permitidas: vovós que moram longe não ficarão tristes!

Entre 18 e 24 meses deve-se optar por programas com qualidade satisfatória para a idade da criança e os pais devem assistir junto. Nada de “ocupar” a criança com o tablet e ir fazer outra coisa, ok?

Deve-se interagir com a criança, ajudá-la a compreender o que está assistindo, e aqui uma dica nossa: fazer pausas com perguntas simples como por exemplo: – Que animal é esse? Qual é a cor do gatinho? O que ele está comendo? Você gostou de qual personagem? Enfim, interação com a criança, explorando o conteúdo assistido.

Aurélia Guilherme – E quanto ao tempo de exposição à tela?

Dr. Fábio Pessoa – O tempo de exposição à tela deve ser respeitado, conforme as etapas do neurodesenvolvimento, como por exemplo:

Crianças entre 2 e 5 anos de idade, independentemente da qualidade do material ao qual elas serão expostas, devem permanecer no máximo 1 hora em contato com as mídias.

Para as crianças com mais de 6 anos de idade, o tempo de exposição, assim como a qualidade do que lhes é oferecido, não deve prejudicar o sono, nem limitar as atividades e muito menos causar prejuízo em relação ao comportamento. Aqui, o importante é o bom senso. Profissionais habilitados (médicos e psicólogos) podem auxiliar as famílias no ajuste da rotina da criança.

É preciso estimular a realização de atividades em família sem a presença de eletrônicos. Passeios, rodas de conversa ou de leitura, momentos em que as refeições são realizadas não devem ser acompanhados pelas mídias.

É cada vez mais comum, famílias “reunidas” sem interação, não é mesmo? Cada um cuidando do seu celular ou do seu tablet.

uso de celular na infância

Outra questão: os quartos das crianças não devem contemplar TV ou computadores,
visto que as crianças são mais vulneráveis às influências negativas e até mesmo perigosas do que é consumido através da mídia digital.

Assim, o uso dos aparelhos deve acontecer sob o máximo de supervisão.

Já os adolescentes não devem ficar isolados em seus quartos por longos períodos de tempo. A realização de qualquer atividade física deve ocorrer obrigatoriamente por pelo menos uma hora ao dia, quebrando a sequência de tempo frente às telas.

Outra recomendação diz repeito à exposição precoce a conteúdos inadequados, que incentivam o consumo inadequado de alimentos, que incentivam o consumo de álcool e de outras drogas, que incitam a erotização e sexualidade, que propiciam o contato com pedófilos ou outras formas de abuso ou de violência.

Orientar os filhos sobre os cuidados em acessar a internet e instalar configurações de segurança, orientá-los a não postar fotos ou informações pessoais e a não se expor em webcam é de suma importância.

Monitorar o comportamento social dos filhos na internet, baseado em preceitos éticos, ao se exigir linguajar e atitudes adequadas, sem cunho violento, discriminatório ou opressor também é muito importante para um uso saudável das mídias sociais.

Enfim, entendemos que todas as recomendações passam por uma presença maior dos pais no dia a dia dos filhos, a fim de garantir uma infância feliz, uma adolescência harmoniosa e garantir a presença de um adulto pronto para viver e melhorar a nossa sociedade.

E para terminar, é sempre bom lembrar que estar junto nem sempre é estar presente!

O Pediatra Fábio Pessoa é um dos idealizadores do site Infância e Comportamento: infanciaecomportamento.com.br

Comentários