Fibromialgia, com a Reumatologista Fábia Mara Gonçalves

Dia Internacional da FibromialgiaCerta vez, entrevistei uma mulher que, durante 15 anos conviveu com intenso sofrimento. Dores generalizadas pelo corpo, fadiga, indisposição que a levavam para cama em crises graves, porém sem diagnóstico. Medicamentos convencionais não aliviavam mais e ela chegou a tomar morfina, em duas dessas crises, no pronto socorro. Durante todo esse tempo de mistério sobre o seu diagnóstico, chegaram a duvidar de seus sintomas. Há apenas cinco anos, ela conheceu o seu diagnóstico: Fibromialgia. Mas, que terrível problema é esse? Veja a entrevista que a Reumatologista, Fabia Mara concedeu à Boavidaonline.com.br

A coluna quebrada - Frida Kahlo - Fibromialgia

Os pregos espalhados pelo corpo no autorretrato, ‘A coluna quebrada, de Frida Kahlo foram a maneira que a artista mexicana encontrou para expressar a dor persistente e generalizada que a acompanhou durante boa parte de sua vida. Um quadro que levou diversos médicos pelo mundo a descrevem a artista mexicana como um caso clássico de Fibromialgia, decorrente de um acidente que sofreu na adolescência.

Boa Vida – O que é a Fibromialgia?

Dra. Fábia Mara – A Fibromialgia é uma síndrome clínica que se manifesta, principalmente, com dor no corpo todo, ou seja, dor generalizada. Uma pessoa com Fibromialgia apresenta grande sensibilidade ao toque e à compressão de pontos no corpo. Junto com a dor, surgem sintomas como fadiga (cansaço), sono não reparador (a pessoa acorda cansada, com a sensação de que não dormiu) e outras alterações como problemas de memória e de concentração, de ansiedade, de formigamentos/dormências, de depressão, de dores de cabeça, de tontura e de alterações intestinais.

Boa Vida – Por que essas pessoas desenvolvem esse mal?

Dra. Fábia Mara – Não existe ainda uma causa definida e, o motivo pelo qual algumas pessoas desenvolvem Fibromialgia, ainda é desconhecido. Estudos mostram que essas pessoas apresentam maior sensibilidade à dor, do que pessoas que não tem essa síndrome. Mesmo desconhecendo a causa exata, sabemos que algumas situações provocam a piora das dores como, por exemplo, excesso de esforço físico, estresse emocional, alguma infecção, exposição ao frio, sono ruim ou trauma. A Fibromialgia também pode aparecer depois de eventos graves na vida de uma pessoa, como um trauma físico, psicológico ou mesmo uma infecção grave.

Boa Vida – Existe alguma estatística sobre o número de pessoas com Fibromialgia?

Dra. Fábia Mara – A Fibromialgia é bastante frequente. No Brasil, há cerca de 2% a 3% de pessoas com esse problema, afetando mais mulheres do que homens, principalmente os 30 e 55 anos. Porém, existem casos em pessoas mais velhas e também em crianças e adolescentes.

A jornalista Aurélia Guilherme e a Reumatologista Fábia Mara Gonçalves

A jornalista Aurélia Guilherme e a Reumatologista Fábia Mara Gonçalves em um encontro social, em Goiânia.

Boa Vida – O que sente o paciente?

Dra. Fábia Mara – Dor generalizada, esse é o sintoma mais frequente. É terrível! O paciente se queixa de dor espontânea e intensa ao toque. O cansaço também é uma queixa frequente, assim como a sonolência. As alterações do sono são extremamente comuns nesta síndrome. Muitas vezes o paciente até dorme um bom número de horas, mas, ainda assim, acorda cansado, o chamado “sono não reparador” da Fibromialgia. Mas, também pode ocorrer insônia, além da sensação de pernas inquietas, antes de dormir e movimentos da perna durante o sono. Como a Fibromialgia é uma doença em que as sensações estão amplificadas, em outras partes do corpo, são comuns as queixas de dor abdominal, queimações e formigamentos, problemas para urinar e dor de cabeça. Assim como em outros pacientes que sofrem de dor crônica, existem também as queixas de falta de memória e de dificuldades de concentração. O quadro crônico da dor, acaba provocando um afastamento social do paciente, que riscos de surgirem alguns distúrbios do humor, como ansiedade e depressão. Estima-se que até 50% dos paciente com Fibromialgia apresentam depressão associada. E, como ambas têm sintomas semelhantes, como distúrbio do sono e fadiga, entre outros, é importante ressaltar que, mesmo coexistindo, essas, são condições clínicas diferentes, e devem ter tratamentos específicos. A Fibromialgia é uma condição médica crônica que pode durar muito tempo, possivelmente, toda a vida. Entretanto, embora não exista cura, a Fibromialgia não é uma doença progressiva. Ela nunca é fatal e não causa danos às articulações, aos músculos, ou órgãos internos. Em muitas pessoas, melhora com o tempo, e há casos nos quais os sintomas retrocedem quase totalmente.

Boa Vida – Algumas pessoas sofrem com os sintomas, algumas percorrem um longo caminho até chegarem a um diagnóstico. Por que?

Dra. Fábia Mara – O diagnóstico da Fibromialgia é essencialmente clínico e feito através dos sintomas e sinais. O médico durante a consulta obtém algumas informações que são essenciais sobre as características da dor, do sono e da fadiga. Ao examinar o paciente, o médico pode observar uma grande sensibilidade em pontos específicos dos músculos, conhecidos como pontos dolorosos da Fibromialgia. Alguns questionários ainda podem ser utilizados para o auxílio, tanto no diagnóstico, quanto no acompanhamento dos pacientes. Não existem ainda exames laboratoriais ou de imagem para Fibromialgia. O seu médico pode pedir exames, para excluir doenças que se apresentam de forma semelhante à Fibromialgia. Essa é a razão pela qual muitos pacientes demoram a descobrir o diagnóstico.

mapa da dor - FibromialgiaBoa Vida – Como é o tratamento?

Dra. Fábia Mara – A Fibromialgia é uma condição clínica, que requer controle da dor e as manifestações devem ser tratadas na direta proporção de sua gravidade.

Com o tratamento atual da Fibromialgia, é possível diminuir a dor em um nível muito baixo e até mesmo elimina-la. Os outros sintomas como a fadiga, a alteração do sono e a depressão também podem ser tratados adequadamente. Mais do que em outros problemas, o tratamento da Fibromialgia depende muito do paciente e o médico deve atuar como um guia.

A atividade física regular é reconhecidamente um método não medicamentoso de grande impacto na melhora da dor, do humor e da qualidade de vida dos pacientes com Fibromialgia. Constitui-se, assim, uma intervenção fundamental, para o tratamento da Síndrome e terá que ser mantida para o resto da vida, pelo risco de a síndrome fibromiálgica voltar, caso essa atividade seja interrompida. Os exercícios físicos são seguros, mas antes de iniciá-los, no entanto, é importante realizar uma avaliação funcional e de riscos potenciais inerentes aos sistemas cardiovascular, respiratório e locomotor, bem como, dos medicamentos em uso. A atividade física deve, portanto, ser individualizada e prescrita pelo médico e, se for necessário, acompanhada por profissional especializado na área.

Boa Vida – Qual a sua opinião sobre o fator emocional, como sendo importante gatilho da dor?

Dra. Fábia Mara – Sim, penso que a psicoterapia cognitiva-comportamental (TCC) seja muito importante, para ajudar o paciente a entender sua forma de agir, perante os acontecimentos do dia a dia e modificar suas emoções. Uma ajuda psicológica poderia auxiliar o paciente na interpretação de suas atitudes frente a dor e aos demais sintomas da Fibromialgia e, assim, enfrentá-los de forma mais eficaz.

Boa Vida – As pessoas costumam dizer que, analgésicos nem sempre resolvem a dor?

Dra. Fábia Mara – Os analgésicos e anti-inflamatórios não são eficazes na Fibromialgia, pois não conseguem regular o cérebro para diminuir a sensação exagerada de dor, que é sentida pelos pacientes. Já, os antidepressivos e os neuromoduladores atuam aumentando a quantidade de neurotransmissores que diminuem a dor, sendo por isso eficazes e utilizados no tratamento da Fibromialgia.

*As informações contidas nas respostas da doutora Fábia Mara foram baseadas na Cartilha para pacientes da Sociedade Brasileira de Reumatologia, desenvolvida pela Comissão de Dor, Fibromialgia e Outras Síndromes Dolorosas de Partes Moles.

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