Fígado intoxicado, com a Hepatologista Patrícia Borges

O fígado é reconhecido, como um dos principais órgãos do corpo humano. Mas, esse status está explicado. O fígado executa multitarefas vitais para a saúde. Essa glândula sintetiza o colesterol, filtra micro-organismos ofensivos, armazena glicose, secreta a bile (“detergente” natural que auxilia na dissolução e no aproveitamento das gorduras), desintoxica o organismo, dentre muitas outras funções. É um órgão que trabalha incansavelmente. Porém, não convém abusar. Um fígado intoxicado de forma crônica, pode ser um grande problema para o paciente.

Como reconhecer um fígado intoxicado

Se as pessoas soubessem a real importância desse órgão, evitariam chegar ao ponto de ter um fígado intoxicado

Fígado intoxicado

Sim, o fígado sofre com os exageros e maus hábitos de vida. Comida gordurosa, bebida alcoólica, toxinas que ingerimos… Esse órgão é muito inteligente e sabe se livrar de todas essas situações desfavoráveis ao seu bom funcionamento. Para chegar à condição de fígado intoxicado, o estrago deve ter sido grande. Tivemos que recorrer à hepatologista e gastroenterologista Patrícia Borges. Veja:

Dra. Patrícia Borges, Gastroenterologista e Hepatologista, CRM-GO: 17446

Aurélia Guilherme – Inchaço nas mãos, pés, tornozelos e abdome podem ser indicativos de um fígado intoxicado? 

Dra. Patrícia Borges –  O fígado é um órgão responsável por metabolizar as substâncias tóxicas do nosso organismo, permitindo o melhor funcionamento de todo o corpo. A presença de edema (ou “inchaço”) nos membros, como nos pés e nos tornozelos, pode estar associada a algumas doenças do fígado. Isso acontece nas fases mais avançadas da cirrose, por exemplo.

Outro detalhe importante e que precisa ser esclarecido é que o “inchaço” na barriga, que chamamos de ascite, também acontece quando o paciente encontra-se com cirrose. A cirrose pode acontecer por diversas causas, dentre elas o etilismo crônico, as hepatites virais e a esteato-hepatite.

No entanto, também devemos nos lembrar de investigar outras possíveis causas para o edema dos membros. Suspeita-se de problemas cardiovasculares (insuficiência cardíaca, varizes de membros inferiores), renais (insuficiência renal) e linfáticos, dentre outros.

Aurélia Guilherme – De que maneira a vida sedentária, o tabagismo, o excesso de álcool e determinados tipos medicamentos deixa o fígado intoxicado?

Dra. Patrícia Borges – Ao longo dos anos, as pessoas mudaram os hábitos de vida. Muitas delas, deixaram a saúde para um segundo plano, se preocupando mais com o trabalho, por exemplo. O sedentarismo tornou-se algo comum. A falta de atividades físicas traz obesidade, eleva o risco de doenças cardiovasculares, como o infarto agudo do miocárdio e a esteatose hepática.

O etilismo veio em conjunto, representado muitas vezes pelo “happy hour”, um hábito comum e frequente depois do trabalho. E quando o consumo de bebida alcoólica aumenta nos finais de semana, isso pode provocar alterações hepáticas. Tal hábito pode levar a uma doença crônica do fígado, a hepatite alcoólica. Essa doença, se não tratada a tempo, com a suspensão da ingestão etílica, pode ocasionar a cirrose.

Quanto a utilização de qualquer medicamento, o ideal é que sejam prescritos por um médico. Isso porque, alguns medicamentos, como os anti-inflamatórios, podem causar alteração na função dos rins, do trato gastrointestinal e do fígado. Se o problema evolui, o caso se agrava para uma insuficiência hepática. Por isso, essas doenças do fígado, se não forem tratadas no momento correto, representam sério risco à saúde.

Aurélia Guilherme – A cor da urina e das fezes pode ter alguma relação com o  fígado intoxicado?

Dra. Patrícia Borges – Sim. Diante da alteração do funcionamento do fígado, alguns pacientes podem apresentar o que chamamos de icterícia. Algumas pessoas conhecem o problema, como “amarelão” no branco dos olhos, na pele e nas mucosas. Essa é uma alteração identificável no exame físico do paciente.

Nessa situação, a urina também pode ficar mais escurecida, tipo cor de “coca-cola”, devido a alteração do metabolismo da bilirrubina. As fezes podem ficar mais claras, o que chamamos de hipocolia ou acolia, que é a coloração esbranquiçada, ou como “massa de vidraceiro”. Tais alterações também devem ser avaliadas durante o atendimento médico, pois podem significar alteração na excreção de bile pelo fígado.

Aurélia Guilherme – Qual a razão da cor amarelada da pele, dos olhos e das unhas levar a suspeita de problemas – hepáticos?

Dra. Patrícia Borges – Nesses casos, podem estar ocorrendo alguma alteração no metabolismo das bilirrubinas. Este é um pigmento produzido pela destruição de hemácias velhas do nosso organismo. Inicialmente, a bilirrubina circula no sangue como bilirrubina indireta, ligada a albumina, e é conjugada no fígado, passando a se chamar bilirrubina direta. A partir daí, ela é excretada pelos ductos biliares do fígado, até ser armazenada na vesícula biliar e excretada no intestino delgado. Quando acontece alguma alteração, tanto na captação, quanto na conjugação e excreção da bile, ocorre o depósito do pigmento de bilirrubina e o aparecimento de icterícia ou “amarelão” na pele, nos olhos e mucosas. Por este motivo, diante de algum desses sinais, deve-se suspeitar de doenças do fígado e procurar um hepatologista. Vale lembrar que outras doenças do fígado também podem alterar a cor da pele e dos olhos e devem ser investigadas por um especialista.

Aurélia Guilherme – É verdade  que o acúmulo de toxinas no organismo pode levar à uma sensação interna estranha de cócegas ou uma coceira incômoda?

Dra. Patrícia Borges – Algumas doenças do fígado podem causar prurido ou “coceira” no corpo, uma delas, é a colangite biliar primária (CBP). Esta é uma doença que acomete, principalmente, mulheres e que pode ou não ter icterícia associada.

Mas, isso não significa que toda “coceira” seja ocasionada por doença do fígado. O primeiro passo é procurar um dermatologista ou infectologista para diferenciar outras doenças de pele que causam o mesmo sintoma. Se durante a investigação os exames laboratoriais mostrarem alteração das enzimas do fígado, deve-se procurar um hepatologista.

Aurélia Guilherme – Um fígado intoxicado leva ao refluxo gástrico?

Dra. Patrícia Borges – Em algumas situações, como após cirurgias para retirada da vesícula (colecistectomia), pode ocorrer um refluxo de líquido biliar e a presença de alguns sintomas da doença do refluxo. Nesses casos, é preciso fazer o diagnóstico correto e tratar o problema. Outras pessoas podem apresentar vômitos, associados a quadros de intoxicação alimentar. Porém, nem sempre levam a toxicidade do fígado e sim de outros órgãos do trato digestivo.

O refluxo gastroesofágico (ou refluxo gástrico), no entanto, é uma doença bem caracterizada. Pode se apresentar com sintomas, como regurgitação de liquido amargo até a boca, sensação de empachamento e azia, além de tosse, pigarro e até falta de ar, em alguns casos. Dentre suas causas, estão os erros alimentares. Destaque para o consumo de refrigerantes, frituras, doces, bebidas alcoólicas e com cafeína, uso de anti-inflamatórios, dentre outros. Além disso, o refluxo pode levar ao desenvolvimento de doenças pulmonares, como a fibrose pulmonar, por exemplo.

Aurélia Guilherme – A diarreia pode ser consequência de um fígado intoxicado?

Dra. Patrícia Borges – Depois de passarem pela cirurgia de colecistectomia (retirada a vesícula biliar, órgão que armazena a bile excretada pelo fígado), alguns pacientes podem apresentar diarreia. Isso acontece, devido a liberação dessa bile diretamente no intestino delgado, sem antes ser armazenada e liberada gradualmente na vesícula, de acordo com a nossa alimentação. Nesses casos, pode ocorrer uma diarreia frequente, até que o próprio organismo se adapte e volte ao hábito intestinal normal.

Aurélia Guilherme – Fadiga, cansaço constante podem ser consequência de um fígado doente e intoxicado?

Dra. Patrícia Borges – Os pacientes com hepatites A, B e C, principalmente na fase aguda da doença, podem apresentar queixa de fadiga e cansaço. Esses sintomas podem estar associados à infecção pelo vírus e sua reação imunológica. Outras hepatites também podem causar os mesmos sintomas, que melhoram após o controle da doença. Na hepatite A, que não evolui para doença crônica, os sintomas melhoram facilmente após a cura virológica. Nas hepatites B e C, após o tratamento e especialmente após a cura da hepatite C, observamos uma melhora importante dos sintomas. Esses sintomas desaparecem, especialmente, quando o paciente é tratado no momento correto, antes do desenvolvimento de cirrose.

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