Ilusão – Quase todos caem nessa armadilha. O que você faz da própria vida?

Nessa minha longa vida de jornalista, entrevistando médicos, pacientes, pessoas sadias, pessoas carentes, pessoas endurecidas pela vida, me deparo com esse texto que trago ao Boa Vida Online. É um texto que encontrei agora e que me fez refletir profundamente. A morte, a finitude, ou o recomeço, o retorno para a casa do pai. Passamos décadas da nossas vidas, rodeando em torno de nossos desejos, em uma falsa ilusão. Somos, tantas vezes, egoístas com quem está tão perto. Agimos com certezas rasas, sem uma leitura mais aprofundada das situações. E, assim, vamos metendo os pés pelas mãos, nos afastando do que realmente importa. E o que importa? Convido o leitor, a analisar a própria vida e rever pontos obscuros, a forma como lidamos com quem amamos, ou com o que nos desagrada.

A ilusão pode ser uma armadilha - O que você faz da própria vida?

É preciso ter maturidade para não cair em uma armadilha, chamada de “ilusão”. Aqueles que passam pelas adversidades, com a consciência plena de que é preciso dar o melhor de si sempre, são os vencedores dessa jornada

Ilusão

Convivendo com minha mãe, aos 81 anos, me vejo em conflitos, em muitos momentos. Mas o que isso significa? Talvez seja para que eu me torne uma pessoa mais apurada, mais madura. Somos tão infantis em tantos momentos! Pois bem, mamãe, algumas vezes “sai da casinha”, a cada dia tem menos autonomia. E eu, a cada dia, mais responsabilidade com ela. Na minha ignorância espiritual, algumas vezes me flagro, a lamentar sua fragilidade. Estou sob teste, sei disso. Preciso passar de ano com louvor. Às vezes, me sinto péssima aluna, quando me vem esse sentimento conflituoso, que mistura culpa por me comportar aquém do que realmente posso oferecer. Viver em ilusão depende de nossa inteligência emocional.

Quando li a carta abaixo, me veio esse questionamento. As ilusões desse mundo nos vence, se deixarmos. É preciso estar atento ao que realmente importa. Qual o problema de se oferecer 10, 20 anos de nossa existência para cuidar dos nossos velhos? Sim, nos parece muito tempo sim. Quando se tem mais de meio século de existência, temos ainda mais urgência nos desejos ilusórios. Mas somos humanos, é compreensível. Humanos em evolução lenta e comprometida com nossas atitudes. Se agimos com insanidade, se negamos a mão a um irmão, a um pai, a uma mãe, a um amigo, a um estranho… estamos dando um tiro no pé.

Não adianta tampar os olhos, a conta chega. Não como castigo , mas para que possamos amadurecer. A carta abaixo desse médico oncologista, foi encontrada para que eu me torne melhor filha do que tenho sido, melhor irmã, melhor amiga, melhor pessoa. E você? Sente-se em falta com alguém por egoísmo, por falta de tempo e falta de amor? Republicando a carta do médico oncologista Rogério Brandão:

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“Quando eu morrer, acho que minha mãe vai ficar com saudade. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!

Como médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional, posso afirmar que cresci e modifiquei-me com os dramas vivenciados pelos meus pacientes. Não conhecemos nossa verdadeira dimensão até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além.

Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional… Comecei a frequentar a enfermaria infantil e apaixonei-me pela oncopediatria.

Vivenciei os dramas dos meus pacientes, crianças vítimas inocentes do câncer. Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento das crianças.

Até o dia em que um anjo passou por mim! Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada por dois longos anos de tratamentos diversos, manipulações, injeções e todos os desconfortos trazidos pelos programas químicos e radioterapias. Mas nunca vi o pequeno anjo fraquejar. Vi-a chorar muitas vezes. Também vi medo em seus olhinhos, porém, isso é humano!

Um dia, cheguei ao hospital cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe.

A resposta que recebi, ainda hoje, não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.

— Tio, disse-me ela — às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores… Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade. Mas, eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!

Indaguei: — E o que morte representa para você, minha querida?

– Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e, no outro dia, acordamos em nossa própria cama, não é? (Lembrei das minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, com elas, eu procedia exatamente assim.) É isso mesmo.

– Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!

Fiquei “entupigaitado”, não sabia o que dizer. Chocado com a maturidade com que o sofrimento acelerou, a visão e a espiritualidade daquela criança.

– E minha mãe vai ficar com saudades – emendou ela.

Emocionado, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei:

– E o que saudade significa para você, minha querida?

– Saudade é o amor que fica!

Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais direta e simples para a palavra saudade: é o amor que fica!

Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas, deixou-me uma grande lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores. Quando a noite chega, se o céu está limpo e vejo uma estrela, chamo pelo “meu anjo”, que brilha e resplandece no céu.

Imagino ser ela uma fulgurante estrela em sua nova e eterna casa.

Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que me ensinaste, pela ajuda que me deste. Que bom que existe saudade! O amor que ficou é eterno”.

A ilusão pode ser uma armadilha - O que você faz da própria vida?

Para valer a pena essa existência, é preciso ir muito além da ilusão, do conforto material, vaidades e amores fulgazes. É preciso ir fundo na emoção e trabalha-la em favor do outro

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