Lúpus Eritematoso, com a Reumatologista Fábia Mara Gonçalves

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“Existem milhões de brasileiros, crianças, jovens e adultos, com doenças reumáticas. Entre os mais de 300 tipos diferentes de doenças deste grupo, está o Lúpus, mais comum nas mulheres, na proporção de nove delas para cada homem atingido. Além de ser uma doença autoimune, na qual o sistema imunológico sofre um desequilíbrio e forma anticorpos que agridem tecidos saudáveis do corpo, essa doença também é inflamatória e crônica. É isso mesmo! Difícil de acreditar que logo o Sistema Imunológico, que existe para defender a nossa saúde, se transforme em um grande autossabotador, ao agredir suas próprias estruturas, confundindo células, tecidos e órgãos como perigosos invasores que precisam ser eliminados. Ocorre uma inflamação nos tecidos das articulações, da pele, das mucosas e de órgãos vitais para a saúde, como os rins, o coração, os pulmões, os olhos, o intestino e até o sistema nervoso central. Atinge também o sangue, levando a diminuição importante da produção de glóbulos vermelhos e brancos.

Existem dois tipos mais frequentes de Lúpus:

  • Lúpus cutâneo: é a forma mais branda da doença e não compromete os órgãos internos.
  • Lúpus Sistêmico: é a forma mais agressiva da doença e atinge, além da pele, os órgãos internos e as articulações, como citado anteriormente.

O Lúpus se manifesta de forma variável em cada indivíduo, afetando desde um único órgão até vários órgãos ao mesmo tempo, mas a grande maioria apresenta dor e edema (inchaço) preferencialmente nas articulações dos dedos das mãos, dos punhos e dos joelhos. O paciente também pode se queixar de linfonodos (ínguas) aumentados, de feridas frequentes nas mucosas (da boca ou dos genitais), de fadiga, de dor no peito ao inspirar profundamente, de desconforto geral, de ansiedade, de mal-estar e de maior sensibilidade à luz do sol. A queda de cabelo é percebida no travesseiro, com chumaços de fios denunciando que a doença está em atividade.

As lesões na pele são muito frequentes. É comum encontrar pacientes com manchas avermelhadas planas ou elevadas e em forma de asa de borboleta nas bochechas e no dorso do nariz. Essas são lesões clássicas. Mas o Lúpus pode ser o causador de lesões de pele com aspectos bem variados em qualquer parte do corpo. Como há muita fotossensibilidade, as lesões costumam estar localizadas em áreas expostas à luz solar, deixando marcas ou cicatrizes, principalmente se as lesões forem mais profundas, como nos tipos subagudos ou discoide. No frio, a pele pode adquirir uma coloração irregular, e os dedos mudam de cor (fenômeno de Raynaud). Enfim, o Lúpus não é brincadeira. Cada paciente sente a doença de forma bem individualizada, com períodos de piora (atividade da doença) e de melhora (controle ou mesmo remissão da doença).

Dra. Fábia Mara Gonçalves, Reumatologista, CRM – GO 5827.

O Lúpus pode variar de leve a grave, pode evoluir de forma contínua ou em crises, pode ser controlado, deixar sequelas (cicatrizes) irreversíveis e pode até mesmo levar a morte. Portanto, esta doença exige urgência de diagnóstico e de tratamento. Dentre os sinais e sintomas do Lúpus podemos destacar:

• Rins: o paciente pode apresentar uma urina muito espumosa (por perda de proteína), pressão alta e inchaço generalizado. O rim corre sérios riscos de parar de funcionar (insuficiência renal) com urgência da diálise ou do transplante renal;

• Cérebro e Sistema Nervoso: Queixas de cefaleias intensas, dormência, formigamento, convulsões, problemas de visão, alterações de personalidade;

• Sangue: Os autoanticorpos destroem o núcleo das células saudáveis, causando a diminuição dos glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Anemia, cansaço, sangramentos são indicativos dos prejuízos no sangue;

• Trato digestivo: dor abdominal, náuseas e vômitos;

• Coração: ritmo cardíaco anormal (arritmias), inflamação do músculo cardíaco;

• Pulmão: tosse com sangue e dificuldade para respirar.

Esta é uma doença complexa, de difícil tratamento e que exige um diagnóstico preciso. São tantas as maneiras diferentes do Lúpus se manifestar que a doença pode ser confundida com outros problemas de saúde. Por exemplo: Gânglios (ínguas) inchados, acompanhados por febre, podem perfeitamente ser confundidos com os sintomas de infecções por vírus ou bactérias. E assim, outros sintomas podem ser mascarados por outras doenças. Um tratamento inadequado do Lúpus coloca a vida do indivíduo em risco.

Sua causa ainda é desconhecida, mas sabe-se que há participação genética, associada a fatores hormonais e a fatores desencadeadores ou precipitantes das crises, como a exposição ao sol, infecções, estresse emocional, cirurgias e gravidez. Mas, muito ainda há de ser investigado e que explique claramente os mecanismos de aparecimento e desenvolvimento do Lúpus.

Quanto ao tratamento, podemos comemorar. Há uma variedade de medicamentos com capacidade de controlar e modular o sistema imunológico, de modo a melhorar os sintomas e sinais do Lúpus. Existem analgésicos ou anti-inflamatórios não-hormonais, para dores e inchaço nas juntas e derrames de membranas que envolvem os pulmões e coração. A cloroquina é utilizada para quase todos os pacientes, ajudando principalmente na pele e nas articulações. Os corticoides são utilizados para tratamento de várias manifestações clínicas; sua dose varia dependendo da gravidade do caso (podendo ser em forma de pulsoterapia, que é a administração de medicamento intravenoso em dose alta). Os imunossupressores também são bastante utilizados e são muito importantes no controle e remissão da doença, bloqueando a sua evolução. Atualmente as medicações chamadas biológicas também estão sendo utilizadas no controle do Lúpus, algumas já disponíveis aos pacientes e outras em fase de investigação, através de pesquisas clínicas que acontecem em várias partes do mundo, inclusive aqui mesmo em Goiânia, trazendo benefícios àqueles pacientes que não melhoram com o tratamento convencional.

Hoje, uma pessoa com Lúpus pode perfeitamente planejar uma vida normal, casar, desenvolver sua carreira profissional e muito mais. Mas para que isto aconteça, é importante que o paciente seja bastante disciplinado e estabeleça uma parceria com o seu médico. É preciso que haja total obediência aos prazos, bem como ao comparecimento às consultas, a realização dos exames no tempo correto e, sobretudo, a tomar a medicação da maneira como foi prescrita. O Lúpus é um problema crônico e que requer cuidados contínuos, mas não impede que o paciente disciplinado tenha uma vida de boa qualidade e que ele possa tocar em frente todos os planos que tinha antes de diagnosticar a doença.”

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