No dia do solteiro, o conceito de "Amor Livre"

por Victoria Acerbi

Amor livre é um conceito redundante

A que ponto, ser atraído para outra pessoa, diz menos sobre seu amor sentido pelo seu parceiro? É a maneira como você lida com isso e sustenta suas verdades em mentiras que circula a grande questão. Engolir sentimentos que estão explodindo dentro de si, não faz sentido, quando se fala de amor. Se a definição de amor livre é redundante, por que achamos que amamos o outro, quando na verdade, os amamos só quando acreditamos em pertencimento? Se o amor é incondicional, por qual motivo você não ama o seu parceiro, quando ele também ama outro ser? E, principalmente, onde está o entendimento de que, o fato de amar, ainda se relaciona à exclusividade obrigatória? As possibilidades de conhecimento e de receptividade, quando se está caminhando por si só são enormes, e o fato de você amar Margaridas, não exclui gostar de Lírios, nem lhe rouba a admiração pelo Girassol. Cada um, com seu cada qual, navegando entre vários mares, onde cada cabeça – e coração – é um Universo.
É imprescindível que a clareza permaneça, no que diz respeito ao amor entre duas pessoas, apenas e somente a elas. Se o amor é livre, é possível sim amar uma pessoa até o fim dos seus dias, caso esse sentimento transborde diariamente, ou, caso você realmente escolha isso para si. Argumento algum, pode julgar o amor, em um sentido de idealismo. A questão é que as pessoas que não se encaixam – ou que nunca se adaptaram a um relacionamento convencional – estão se vendo, cada dia mais próximas de outros, que dividem do mesmo pensamento. Isso talvez, porque a agonia sobre si mesmo, ainda perdura prematura. E como amar o outro, antes de saber o que é amor próprio?

Outro sublinhar é a liberdade – ou a vontade dela – que ronda as pessoas, questionando-as. O conceito de “amor livre”, erroneamente usado na atualidade, não exclui qualquer forma de amor, muito pelo contrário, o complemento “livre” – redundante ao verdadeiro amor – só existe para reafirmar a ideia de liberdade e leveza. Mas liberdade, assim como o amor, também não pode ser idealizada, por um conceito específico. Tem gente que se sente livre de uma maneira que já sufoca o sentido de liberdade de seu vizinho. Tudo é relativo, quando o conceito percorre sobre a sabedoria de que cada um mergulha na sua imensidão. No entanto, em algum momento da vida, quem se questiona sobre tudo isso e decide que quer mesmo viver de outra maneira – ou percebe que não esteve sendo tão fiel a si mesmo e às suas sensações mais avassaladoras – parece estar buscando, ser o único dono de seu destino.
E ser dono de seu destino, nada mais é do que ser fiel a você mesmo. Fora as responsabilidades naturais a que estamos inseridos normalmente, até aquelas que nos são enfiadas “guela” abaixo, podemos fazer tudo o que quisermos. Não há limites. A estrada é individual, portanto, quem a conduz só pode ser você. Se por um momento, simbolizarmos a jornada da vida, com um carro, onde você é o motorista, verá que pessoas entram e saem do veículo, mas é você quem permanece na direção. Encontra-se obstáculos até o ponto de chegada, mas também se maravilha com plantações coloridas e com um pôr do sol aconchegante, após pegar alguma via, por engano.
Ao seguir por aí, verá que as vontades próprias não são bobas ou pequenas, são apenas vontades. Por qual motivo as temos? Cabe-nos apenas cavucar nosso oceano e entendê-lo, mas ninguém, pode nos dizer se o que desejamos é “isso” ou “aquilo”. Descobriremos, cedo ou tarde, o que são, de fato, nossas vontades. Mas, só cabe a nós mesmos, a descoberta. Algumas vezes, infelizmente, é necessário chegar ao próprio limite, ao topo da montanha ou ao fundo do poço, para que a compreensão se faça iluminada.
Se há amor, há liberdade. Se há liberdade, há leveza e há uma infinidade de portas a serem abertas. Nesse meio tempo, é possível que entremos de cabeça em um dos caminhos e o percebamos por inteiro, intensamente, por um longo tempo – ou até para sempre. Saiba que isso nos trás muita sabedoria e muda a nossa trajetória de alguma maneira. Porém, enquanto isso não acontece – ou já veio, mas se foi – experimente. Procure por cada sabor e sinta cada textura, entenda os diferentes formatos, mergulhe em cada pupila, beije de várias formas diferentes, beije várias pessoas diferentes (se quiser) e debruce entre várias energias – que lhe favoreçam, de alguma maneira, em alguma homeostase em que o faça sentir-se vivo.

Mantenha-se em movimento e se permita viver, acredito que esse é o real sentido de amar livremente. Só não vale esquecer do respeito mútuo, quando há algum tipo de comprometimento. Entre duas pessoas e entre quatro paredes, o que vale e o que existe é apenas o que elas sabem. Decidam suas necessidades, se afirmem, se imponham como seres fiéis à sua essência – mentir para si mesmo pode parecer um bom remédio instantâneo, mas uma hora a máscara cai, mesmo sem querer, a verdade bate à porta. A realidade pode nos estraçalhar, como uma verdadeira terapia de choque. Nesse ponto, não vale a pena chegar ao limite: escute sua voz mais interior.

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