Por festas mais lights

Vai chegando outubro e começa a pipocar no consultório, juntamente com a chuva e consequente diminuição da luminosidade, a Síndrome das Bolinhas de Natal. A luz é um fator ambiental que atinge biologicamente nosso humor, e com sua baixa, pode nos levar a um dégradée de ligeira nostalgia e introspecção, até depressões mais profundas. Vide o incrível aumento de suicídios na Escandinávia no inverno com dias de apenas três horas.

No entanto, a tal síndrome tem outros fatores causais, como balanços de final de ano negativos e expectativas impossíveis que nos impedem de estar em paz para nos deleitarmos com as festas. Aí então, penso que vem a Síndrome da Obesidade do Papai Noel.

Já pararam para pensar porque Papai Noel já nasceu velho, gordo, de barbas longas e ainda nem troca de roupa? Imagino o bom velhinho, cheio de boas intenções, lendo as tais cartas a ele dirigidas. Os pedidos das crianças, alguns podem até ser caros, mas de uma forma ou de outra são compráveis, substituídos, doados ou ficam para um futuro possível. Já os pedidos dos adultos devem ser assustadores, fonte de intenso estresse para o Velho Noel.

Como não se preocupar que as pessoas não querem receber seu presente porque a família toda não está reunida, porque se separou do cônjuge, porque um filho está doente, porque alguém faleceu há muito tempo, e sua morte está mais presente do que as boas lembranças da vida que deixou. Como explicar que final de ano não é balanço de caixa e que na verdade ninguém vem cobrar essa conta, só o próprio sujeito é que se atormenta. Afinal, nunca vi Papai Noel de trajes de Leão de Imposto de Renda. Certamente esses pedidos impossíveis, de que tudo esteja na perfeita ordem no final-de-ano , elevam o cortisol sanguíneo do velhinho a altas taxas . Consequentemente, a obesidade e o seu saco tão pesado. O saco-cheio dos presentes que não pode dar.

Pensando nisso resolvi dar um presente para o Noel, uma carta, não de pedidos, mas de auxilio . Enviei via e-mail é claro, já que o correios faz algum tempo que parece estar cansado também – faltam caixas em Goiânia para se mandar remessas e o Sedex 10 não atua aqui. Bem, mas isso daria uma carta para a Dilma. Não se tratando disso agora, então vai para o Noel a carta-e-mail:

“Oi Velho,

Esse ano queria te dar uma força. O pessoal anda comprando muito, mas sabemos que esses são os presentes mais fáceis de entregar. Queria te dizer para não se estressar tanto, cuidado com essa pança, colesterol alto provável, um dia o senhor empacota.

Acho que o senhor podia mandar uma mensagem para aqueles que não se sentem realizados o suficiente para aproveitar as datas de final de ano. Explica para eles que a festa não precisa ser de arromba, e que tem gente que vai faltar à festa e os motivos são justos: ou porque não podem estar presentes ou por que simplesmente não desejam. E explique também que quem comparece de cara boa deve tomar o lugar no nosso coração dos mal-humorados e encrenqueiros. Acho que você concorda que os homens criaram festas para se divertir. O Natal é apenas uma oportunidade de comemorarmos o que está dando certo e não rememorar as mazelas. É uma chance que deveríamos nos proporcionar de nos alegrarmos com as pessoas que realmente estão ao nosso lado e de dizermos a estas o quanto apreciamos isto. Sem esperanças utópicas as festas podem ser lights e assim bem mais baratas para o bolso e para o nosso bem estar físico e psíquico. Caso as pessoas aceitem essa simples ideia pode ser mais fácil, não? Os balangandãs são para encher a árvore e não nossas cabeças.

E para o senhor Noel …lá vai meu conselho: deve urgentemente entrar para uma academia.

Ano que vem queremos um Papai Noel mais sarado.”

*Crônica publicada no jornal O Popular 

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