Psicologia Hospitalar, com a Psicóloga Ana Paula Ribeiro Gomes

A psicologia hospitalar é uma área que visa fornecer suporte ao indivíduo doente, e aos seus familiares e cuidadores, a fim de que possam atravessar essa fase, com resiliência e tranquilidade. É importante ressaltar que este tipo de tratamento abrange todos os aspectos em torno do adoecimento, não somente as doenças psicossomáticas, mas todo o tipo de enfermidade. Para compreender de forma mais completa o assunto, o Boa Vida Online traz uma entrevista com a Psicóloga Ana Paula Ribeiro Gomes. Veja a seguir:

Boa Vida Online – Como é o trabalho do psicólogo hospitalar?

Ana Paula Ribeiro Gomes –  Psicologia Hospitalar corresponde a um conjunto de ações e técnicas psicológicas direcionadas às pessoas em tratamento hospitalar, com o intuito de trabalhar a instância psicológica do doente, visando à recuperação da saúde integral. Vale ressaltar que a Psicologia Hospitalar não se refere apenas ao paciente, mas também à família e à equipe de saúde envolvida no caso. O trabalho do profissional da psicologia é tentar elaborar uma maneira de promover mudanças no contexto de hospitalização e diminuir o sofrimento do paciente nesse processo. Construir um espaço humanizado e com o respeito que cada paciente, familiar e equipe precisam.

Boa Vida Online – Como funciona e qual a importância da terapia nesses casos?

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Ana Paula Ribeiro Gomes, psicóloga, pós-graduada em psicologia da saúde e hospitalar pela Incursos em 2017, pós-graduanda em psicologia transpessoal pela Unipaz. CRP/09-10111

Ana Paula Ribeiro Gomes – A terapia que ocorre nos hospitais, é diferente das tradicionais, praticadas nos consultórios, pois, por muitas vezes, esse paciente não permanece tempo suficiente para ser realizada uma psicoterapia, nem temos lugares adequados para isto. Dessa forma, a maneira de prestar atendimento é breve e focal, ou seja, atendemos o adoecimento ali, no momento do conflito e tentamos ressignificar tudo aquilo que o paciente já passou, ou ainda vai passar, através da escuta, da fala e do conhecimento.

É de máxima importância que os pacientes saiam do processo elaborando tudo de forma saudável, tendo consciência e tranquilidade. Acordar em uma UTI, por exemplo, pode ser altamente traumático, por isso a necessidade de se avisar o paciente previamente, através de um pré-operatório bem elaborado, em que o psicólogo, após a visita do médico, explica e questiona se ele tem dúvidas, ou se conhece o processo, informa que ao terminar a cirurgia, ele irá para um leito de UTI, para melhor recuperação e que, ao acordar da sedação, um profissional irá prontamente atendê-lo. Isso faz com que o paciente seja atuante e não passivo a esse momento.

Boa Vida Online – Qual a principal função deste profissional?

Ana Paula Ribeiro Gomes – Acredito que são várias funções, todas importantes, tendo em vista as necessidades de cada paciente: é priorizar um atendimento humanizado, em que cada pessoa é atendida pelo seu nome; em que a equipe esteja interligada, afinal, cada profissão lida e vê aquele paciente de uma forma; discutir o caso em equipe e, assim, elaborar o atendimento ideal. Pré, trans e pós-operatórios bem elaborados e realizados pelo profissional da psicologia, trazem grandes resultados, comprovados em pesquisas, pois um paciente que passa por um processo de internação bem informado, consegue elaborar, da melhor forma, todo o ocorrido e, com isso, diminui – se a rejeição ao processo hospitalar. Além disso, também é possível auxiliar no alívio dos sintomas, de situações advindas desse adoecimento, tanto para o paciente, quanto para a família.

Boa Vida Online – Então, a Psicologia Hospitalar não trabalha somente com os adoecidos, mas também é estendida à família?

Ana Paula Ribeiro Gomes – O psicólogo, ao atender o paciente, tem pontos importantes para observar, avaliar e trabalhar, como o processo de aceitação, adesão e a elaboração do processo de adoecimento. São percepções de sentimentos, inter subjetivação, promoção e manejo das relações. Com a família nosso olhar se difere em alguns pontos, principalmente, na capacidade dos familiares em processar informações, como eles reagem com cada notícia, como é a capacidade de enfrentamento em determinadas situações de crise. Para cuidar de um paciente adoecido, precisamos de uma rede de apoio, por isso a necessidade de olhar também esse cuidador. Escutá-lo e compreender como é o cuidar, se existe um revezamento, como é feita a escala da família nesse processo.

O psicólogo pode desenvolver grupos para atendimento, sendo eles de pacientes ou cuidadores. Esse grupo teria por finalidade, compartilhar essa vivência, como é esse processo e como se posicionar nesse momento, pois em um hospital perdemos muitas particularidades.  

psicologia hospitalar

“É saber que tem alguém que diz: “Você não está sozinho; vamos juntos! Conte comigo!” Ana Paula Ribeiro Gomes, Psicóloga.

Boa Vida Online – O trabalho abrange somente a hospitalização em si, ou também, as sequelas e consequências emocionais decorrentes do adoecimento?

Ana Paula Ribeiro Gomes – Acolher envolve uma atitude de relacionamento com o outro. Envolve ouvir, procurar, compreender, tentar responder aos questionamentos do outro, e também diz respeito a capacidade de se colocar no lugar da outra pessoa. Além disso, significa ter consciência de que poderia ser um de nós, ou um ente querido na mesma situação.

A Psicologia hospitalar envolve tudo, desde a primeira hospitalização, até a atual, passando por toda a particularidade do processo, para aquele paciente. O usuário é o protagonista do sistema de saúde, tendo uma importância vital para que esse possa se aperfeiçoar, afinal, sem o usuário o serviço não existiria. Muitas vezes, o usuário sente-se satisfeito com o serviço, embora não tenha tido sua demanda atendida, por ter sido respeitado, verdadeiramente ouvido e considerado.

O contrário também pode acontecer, o usuário aparenta ter uma determinada demanda física, o serviço resolve esta questão, mas a pessoa continua sentindo-se insatisfeita, por ter outras demandas não explicitadas, mas que não foram percebidas pelo serviço. Podem ser relativas à atenção recebida, à falta de escuta ou ao pouco interesse demonstrado pelos profissionais.

Boa Vida Online – A Psicologia Hospitalar é ainda pouco difundida. Em alguns lugares, as pessoas realmente não conhecem/valorizam a importância de um psicólogo em momentos como esses. Qual a sua visão sobre essa realidade?

Ana Paula Ribeiro GomesInfelizmente, muitas pessoas vêem a psicologia como desnecessária, ou até como luxo, sem conhecer ou passar pelo processo terapêutico. Dentre as conquistas específicas da Psicologia Hospitalar, é inegável o espaço ocupado dentro da própria profissão, sendo uma atividade pioneira, que resgatou e dignificou a importância social e clínica do Psicólogo.

O encontro entre profissionais de saúde e pacientes é, por essência, educativo para ambas as partes envolvidas. Ali acontece um aprendizado, devido ao processo de diálogo. Um ser que sofre e conhece a sua realidade, e outro que tem um conhecimento científico sobre alguns aspectos desse sofrimento.

Deve-se considerar o efeito multiplicador de cada pessoa acolhida em um programa de promoção à saúde, partindo de sua interação com tantas outras nos grupos sociais em que se relaciona.

O psicólogo hospitalar atua interpretando as demandas do paciente, da família e da equipe multiprofissional que está atendendo. Ele é um facilitador dessa rede, esclarece dúvidas, trabalha sentimentos. Ter um profissional de psicologia hospitalar amplia a promoção de saúde e a adesão dos pacientes e familiares ao tratamento.

É saber que tem alguém que diz: “Você não está sozinho; vamos juntos! Conte comigo!”

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