Refluxo Gastroesofágico, com o Gastroenterologista Rômulo Gustavo Pereira

Existem milhões de pessoas com refluxo gastroesofágico. Boa parte delas, sofre por não encontrar um diagnóstico correto do problema e, permanece sem tratamento, em um quadro que pode se agravar, com consequências sérias. Conversei com o Gastroenterologista Clínico Rômulo Gustavo Pereira sobre o assunto; nós recebemos dezenas de emails de internautas que se queixam dentem azia, queimação, sensação de bola na garganta…Vamos entender o Refluxo Gastroesofágico:

Aurélia Guilherme – Vamos conceituar o Refluxo Gastroesofágico:

Rômulo Gustavo Pereira – O refluxo gastroesofágico é a situação em que o conteúdo gástrico reflui para o esôfago, devido a um “escape” que ocorre na região de transição, que se chama cárdia. Manifesta-se principalmente com sintomas de azia e/ou regurgitação. Relamente, milhões de pessoas sofre com o problema, principalmente após as refeições. Porém, o refluxo se torna uma doença, na medida em que lesões na parede do esôfago, como a esofagite e outros problemas, comprometem a qualidade de vida.

Aurélia Guilherme – Por que algumas pessoas desenvolvem o problema?

Dr. Rômulo Gustavo Pereira , Gastroentereologista e Nutrólogo, CRM-GO: 8829

Rômulo Gustavo Pereira – Há uma certa predisposição individual para o refluxo, principalmente entre as pessoas mais idosas, do sexo masculino, obesas, gestantes e portadoras de hérnia de hiato. Como disse acima, a cárdia é a área de transição entre o esôfago e o estômago, em que há um músculo circular, conhecido como esfíncter, que deveria se manter fechado, exceto quando engolimos e ele se abre para dar passagem para os alimentos. O esfíncter funciona como uma válvula. Nas pessoas com predisposição a ter refluxo esofágico, essa válvula não funciona adequadamente ao se fechar, permitindo que o conteúdo gástrico reflua para o esôfago. Além disso, pode haver uma incapacidade do esôfago em depurar o conteúdo do esôfago para baixo, através da secreção da saliva e dos movimentos esofágicos (peristaltismo). Alguns alimentos, medicamentos, e até um esforço físico, são exemplos que podem piorar ainda mais os sintomas de refluxo.

Aurélia Guilherme- Quais são os sinais que indicam que o paciente tenha refluxo?

Rômulo Gustavo Pereira – Os sintomas típicos são os digestivos, como azia (queimação no peito que pode ir até a garganta) e regurgitação (retorno de ácido ou alimentos até a garganta ou boca), podendo ainda haver sensação de empachamento após a refeição. Outros sintomas, chamados atípicos (mas não necessariamente raros), envolvem outros sistemas, como dor no peito, pigarro, tosse, rouquidão, alterações dentárias, halitose, entre outros.

Aurélia Guilherme – O senhor se referiu à hérnia de hiato a um dos problemas que leva ao refluxo. Mas o que vem a ser hérnia de hiato?

Rômulo Gustavo Pereira – Hérnia de hiato é uma alteração anatômica, em que acontece uma “folga” no orifício por onde o esôfago atravessa o diafragma (músculo que divide tórax e abdome). Esse enfraquecimento do diafragma e alargamento do orifício (hiato esofágico), por onde o esôfago penetrar na cavidade abdominal para se ligar ao estômago, compromete ainda mais a função de válvula da região e prejudica também a depuração do órgão.

Aurélia Guilherme – Em que situações deve haver uma maior preocupação quanto aos sintomas?

Rômulo Gustavo Pereira – É importante ter atenção a alguns sinais, principalmente, aquelas pessoas com mais de 40 anos, com doença de longa duração, presença de sintomas, ditos “de alarme” (dificuldade e/ou dor à deglutição, anemia, sinais de sangramento e perda de peso) e, sintomas intensos de náuseas, vômitos, além daqueles pacientes com história familiar de câncer.

Aurélia Guilherme – Esses incômodos pioram com a alimentação desregrada?

Rômulo Gustavo Pereira – Sim. Diversos alimentos podem desencadear os sintomas. Quem nunca sentiu azia e má digestão, com um eventual excesso de fim de semana? Até certo ponto, é esperado que isso aconteça, principalmente com alimentos gordurosos, condimentados (pimenta, alho, cebola, etc.), ácidos (cítricos), dentre outros.

Aurélia Guilherme – Quando não há tratamento correto, como é a evolução do problema até o seu estado mais agravado?

Rômulo Gustavo Pereira – A evolução é muito variável e individual. Em alguns casos, as feridas no nas paredes do esôfago, podem levar a anemia, por perda de sangue e possível complicação do caso, com estenoses (estreitamentos), úlceras e até câncer de esôfago. Um problema muito comum que ocorre, é o uso indiscriminado de medicamentos, muitas vezes, sem que haja, até mesmo, um diagnóstico determinado. Acontece que, as medicações, muitas vezes, aliviam os sintomas, mas nem sempre cicatrizam as lesões que podem existir no esôfago. São essas lesões que levam às complicações.

Aurélia Guilherme – O que é esôfago de Barret?

Rômulo Gustavo Pereira – Esôfago de Barret é uma alteração nas células do esôfago, em pessoas portadores de doença do refluxo de longa duração (anos e até décadas) e mais graves. Como uma forma de mecanismo de defesa do corpo, essas células se transformam, até se tornarem semelhantes às do intestino, que são mas resistentes ao conteúdo gástrico, num processo chamado de metaplasia. Essa metaplasia, se não tratada, pode, em alguns casos, evoluir para displasia e, depois, até para neoplasia (câncer) de esôfago, principalmente quando são lesões mais extensas.

Aurélia Guilherme – O que podemos fazer para evitar que ocorra o refluxo?

Rômulo Gustavo Pereira – Chamamos a isso de medidas não medicamentosas. Um adequado controle de peso é fundamental, pois a obesidade é um forte fator de risco para a doença. Além disso, a educação alimentar, quanto ao fracionamento das refeições é interessante; comer em menores quantidades; diminuir o consumo de alimentos gordurosos, frituras, condimentos fortes, bebidas gaseificadas, cítricos entre outros e, é claro, NÃO FUMAR! Essas são medidas bem eficazes!

Aurélia Guilherme – O excesso de gordura entre as vísceras seria um fator agravante, uma vez que isso favorece a pressão entre os órgãos abdominais, aumentando a compressão do estômago?

Rômulo Gustavo Pereira – Sim. Esse seria o princípio pelo qual o obesidade piora o refluxo, devendo, portanto, o portador da doença, manter o peso dentro da normalidade. Situação semelhante de compressão do estômago, mas não por excesso de gordura, ocorre também em gestantes, situação em que também é mais comum, a frequência de sintomas do refluxo.

Aurélia Guilherme – Como se identifica de forma conclusiva o Refluxo Gastroesofágico?

Rômulo Gustavo Pereira – O diagnóstico é principalmente clínico. Os exames complementares servem para confirmar (ou não) o diagnóstico e para pesquisa de complicações, como a esofagite. Os exames, usados para esses casos, são a endoscopia digestiva alta, a manometria e a pHmetria do esôfago, além de exames radiológicos e cintilográficos.

Aurélia Guilherme – O que fazer, se o paciente não responde ao tratamento?

Rômulo Gustavo Pereira – Primeiro, ajustar doses de medicamentos, ou mesmo, trocar a medicação em uso. Hoje, existem muitos medicamentos potentes e eficazes no tratamento da doença. Já, aquelas pessoas que não respondem à uma dose adequada, o diagnóstico de doença do refluxo fica menos provável, devendo-se considerar a investigação de outras causas para as queixas apresentadas.


Aurélia Guilherme – O problema pode voltar? Não há cura?

Rômulo Gustavo Pereira – Trata-se de uma doença crônica. Não existe uma cura, mas sim, o controle desta. Na maioria das pessoas, os casos são de leve intensidade; medidas não medicamentosas, como controle de peso e abstenção do tabagismo são suficientes, com uso eventual de medicação para aliviar sintomas. Porém, há casos mais graves que necessitam do uso contínuo de medicação, ou de, até mesmo, uma intervenção cirúrgica.

Aurélia Guilherme – Quais são as orientações e dicas para prevenir problemas no estômago?

Rômulo Gustavo Pereira – Não diria para o estômago, nem para o aparelho digestivo, mas sim, para a saúde, como um todo. Tenha sempre uma alimentação saudável e equilibrada, faça uma atividade física regular, não fume, nem beba em excesso.

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