Sempre o mesmo? A solidão nunca tira férias

” E em sessões pós-festas…

– Passaram-se o Natal e o Réveillon, mas agora, pior do que os dois feriados vêm umas férias inteiras… Férias que sempre íamos para a praia, e que sempre alugávamos aquela casa e era sempre uma farra… Férias que sempre escolhíamos a dedo o local mais charmoso do mundo… Férias que sempre nossas famílias vinham para nossa casa e os primos sempre faziam uma algazarra… Férias que nunca mais voltarão ou nunca serão as mesmas…

Separação é separação. É o grande momento da vida de nos lembrarmos de que quando nos separamos do corpo da mãe, nunca mais seremos inseparáveis. No entanto, essa aparente tragédia nem sempre tem que ser um drama. Pode se tornar uma dádiva.

Como é possível?

De algumas formas, mas hoje vou falar das armadilhas do pensamento. Escute o que se repete na sua fala. Nos casos acima, duas palavras das quais precisamos nos separar urgente é do sempre e do nunca. Parece até que sempre e nunca são ótimos! São, na verdade, uma chatice.

Você discorda?

Tudo bem, você ama praia – confesso que também – e por isso mesmo me desafia a usar esse exemplo. Sempre a mesma praia, ou sempre praia. Sempre as mesmas pessoas. Sempre a casa para arrumar, é de férias, mas é casa. O cano entupido, e a piscina suja. Sempre não avisam que a casa tem goteiras e os quartos cheiravam a mofo. Supermercado, cardápio, comida para fazer. Fazer ou contratar uma empregada? Administrar a empregada que cobrou uma grana. O carro enguiçou na estrada. O avião atrasou. Os primos saíram no tapa, um cortou a testa e minha irmã ficou muito p…. chateada. O cunhadão bebeu demais. Será que ele me cantou?

Ah! Você vai me dizer que apesar dos contratempos valeu à pena, e ainda que nesse texto estou sempre citando o que deu errado. Mas, estou tentando lhe mostrar é que nem sempre deu certo. Reveja suas férias e seu relacionamento com esses termos que são reais. A Terra do Nunca e do Sempre são fantasias – objetos idealizados. Você precisa se separar dessa ilha paradisíaca que lhe aprisiona. Questione as lembranças a seguir. Nunca a nossa família se desentendeu… Nunca acabamos umas férias mais estressados ou cansados do que relaxados… Nunca ficamos endividados com as férias… Nunca poderei fazer igual… Acredita mesmo nisso?

Está em dúvida? Oba! Vamos fazer desigual, mesmo que seja para o mesmo lugar, será outro destino. Que ótimo!

Na verdade, um dos grandes medos é mesmo de ser igual e morrermos de saudades. Caso, você decida ser bem honesta com você mesma, perceberá que mesmo querendo muito que seja igual, vai ser desigual, com coisas até iguais, mas nem sempre iguais. E o conjunto de nem sempre iguais, não é igual, é no máximo semelhante. Escolha outro roteiro de viagem, literalmente. Vá para a Terra Mental do Nem Sempre e do Nunca foi Nunca.

Lacan nos mostrou que o inconsciente é estruturado como linguagem. Ou seja, bem superficialmente, sentimos o que pensamos. O que falamos nos insiste em nos fazer infelizes porque duvidamos de que podemos dizer diferente.

– Foram boas férias. Aqueles momentos alegres não voltam mais, mas não se perderam – foram vividos. E de brinde, aqueles momentos “trashes” também não voltarão mais. Que bom! Agora tudo será surpresa!

Dê férias eternas para sua solidão! Compre uma passagem para o Continente do Desejo que as férias nem sempre, nem nunca serão as mesmas pelo resto de sua vida. Assim, ganhará milhas para um trecho só de ida para a solidão na Ilha Amaldiçoada do Sempre e Nunca.

Não viva um ano igual. Viva um novo ano novo!”

*Artigo publicado no site Bem Separadas 

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