Solidão: Ela existe mesmo ou é um fantasma?

“Penso que a pergunta do título é a questão mais difícil para a maioria dos cônjuges em separação. E por que não seria a separação dos filhos? Ou a separação financeira, ou a divisão de imóveis, empresas; e até a repartição dos casais amigos que muitas vezes tomam partido, ou apenas escolhem estar apenas com um, destes  separados?

Quando afirmo isso, alguém pode dizer que os motivos da solidão são diversos. Fulano sofre, pois não admite perder ou não aceita ser deixado. Na superfície do comportamento pode ser isso. No entanto, não é apenas disso que se trata.  É pior, dói tanto assim, porque é muito mais profundo. Perder, ser deixado, sentimentos de posse – na raiz, é tudo medo do que está invisível. Na sombra, o horror do fantasma da solidão.

Poderíamos aqui abordar os diversos tipos de solidão, mas na verdade a solidão se origina sempre de um mesmo temor. Irei, então, me ater àquela que surge como uma avalanche, ou seja, que dispara seu coração, que não lhe dá saída e depois é aterradora. Aterradora porque muitas pessoas que se separam não conseguem mais sair do lugar.

A solidão que nos impede de respirar só com seus pulmões. A solidão que nos impede de existir, com um mínimo de paz, sem a companhia do outro. A solidão que nos impede de usufruir do seu próprio corpo, pois, sem o outro somos simplesmente um corpo despedaçado. A solidão que ficou maior ainda porque acreditamos que um outro nos completava, e era nossa outra metade perdida. Então, quando o outro se vai, nos tornamos amputados.

Mas, se isso é um fantasma, por que nos fizeram crer nisso?

Bem, esse é o lema do amor romântico: a alma gêmea, que completa, que nos salva. Quando alguém vem para a psicanálise querendo resolver o estrago de uma separação, logo percebe que não se trata bem disso. Perder alguém que gostávamos é de fato triste, viveremos esse luto sem dúvida, mas não precisa ser aterrador, desestruturante, ou mesmo, uma tragédia.

O duro, porém com saída, é descobrir que na verdade o que desestrutura é o fato de não termos aprendido a ser só – ficamos como se estivéssemos diante do inimigo mortal quando estamos diante de nós mesmos. Ou seja, ficar sozinho é ficar conosco mesmo, esse monstro que sou. Esse monstro que me tornei – esse fantasma da ópera – sem a metade da minha face que o outro levou com ele e jogou fora.

Mas de onde vem essa dor de se sentir despedaçado? Eu diria que a pergunta não é de onde, mas de quando. Quando nascemos perdemos metade do nosso corpo, perdemos a placenta, perdemos o corpo da mãe. Essa é a primeira e maior dor do ser humano. Até os seis meses, nossa visão e toda nossa estrutura neuronal nos dá a sensação que mamãe e eu somos uma só coisa. Porém, quando atingimos o amadurecimento da visão, descobrimos que mamãe pode ir embora e não voltar, pois fomos separados. Separados?

Ah! Então vinte, trinta, cinquenta anos depois, essa palavra separados lhe lembra de alguma coisa?

– Ai que horror! Posso morrer? Sim.

Caso sua mãe, ou um outro muito próximo, não lhe amasse você iria morrer de fome, de poucos cuidados ou de mau trato.

– Certo. Não morri lá, mas, posso morrer agora. Agora que tinha recuperado minha outra metade perdida e estou a perdendo de novo.

Separação é uma palavra repleta de significados ruins e catastróficos. A queda das Torres Gêmeas? Não foi à toa que as Torres Gêmeas foram escolhidas para ser o símbolo da superioridade humana. Assim sendo, foi um golpe de mestre atingir o mais precioso da humanidade com a sua destruição. Além da morte de milhares de pessoas, um simbolismo enorme! Relembrar a dor mais lancinante que todo ser humano precisou sentir para estar vivo. Separar! Destruir duas coisas unidas, sublimes, ricas, e repletas de poder enquanto juntas.

Bem, então se toda a vida humana começa assim, de fato é uma tragédia. Sim e não. A boa notícia é que nossas vidas podem estar muito Bem Separadas e sermos até muito mais felizes.

– Como assim?

Existem muitos meios de se atingir esse estado. Nos próximos textos vou continuar falando dos meus instrumentos para tal. Um processo de análise faz nos descobrir quem somos, do que gostamos, o que desejamos, e nos separa do desejo escravizador do outro. Uma libertação! Poder viver para agradar a si mesmo e não aprisionado a realizar o desejo de um outro, para não corremos o risco de perdê-lo.

Assim, separadas ou unidas, e não mais atadas. Numa próxima relação, estar ao lado do outro, Bem Separadas, sem grudar e se perder nele. Pense nisso! Solidão não existe. Quando ela está presente sentimos tantos tipos de solidão, que risivelmente, nem a solidão está só.

Estar sozinho pode ser um momento de paz, ou pode ser mesmo uma delícia, como esse momento que estou só, diante do meu computador, adorando escrever esse primeiro texto para o Bem Separadas.”

*Artigo publicado no site Bem Separadas 

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