Transtorno Bipolar do Humor, com o Psiquiatra Luiz Antônio Paiva

O Transtorno Bipolar do Humor, também chamados por alguns, de Bipolaridade, é uma patologia de difícil diagnóstico. Quem padece deste mal, costuma oscilar entre momentos de bem – estar pleno e energia, e um outro extremo, o da depressão, da falta de energia e da fuga ao prazer. Saiba mais sobre o assunto, por meio da entrevista esclarecedora que fizemos com o  Psiquiatra Luiz Antônio Paiva:

Boa Vida Online – Como é caracterizado o Transtorno Bipolar do Humor?

Dr. Luiz Antônio Paiva – Como o próprio nome indica, a doença tem dois pólos, sendo um de euforia e outro de depressão. Antigamente, dava-se lhe o nome de doença maníaco-depressiva. Atualmente, estuda-se inúmeros subtipos englobados no Transtorno Bipolar do Humor, inclusive alguns que, pela brandura dos sintomas, nem sequer são cogitados.

Dr. Luiz Antônio Paiva – Psiquiatra, formado pela Universidade de Brasília, onde também fez especialização em Psiquiatria. Título de especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria/Associação Médica Brasileira. Consultor Legislativo de Saúde, aposentado do Senado Federal. CRM-GO – 2010

Boa Vida Online – Existem níveis diferentes da doença?

Dr. Luiz Antônio Paiva – Não são níveis diferentes, mas sim subtipos da doença que variam, é claro, de gravidade e prognóstico. Há estudos que catalogam inúmeros subtipos, cada qual com suas características, demandando também, diferentes estratégias de abordagem terapêutica.

Boa Vida Online – As pessoas que têm oscilações de humor frequentes, podem ser consideradas bipolares?

Dr. Luiz Antônio Paiva – Todos nós temos uma variação normal nos nossos estados de humor: ora estamos mais ativos e alegres, ora estamos mais quietos e até com uma tristeza compreensível. Porém, considera-se anormal, oscilações muito amplas, que escapam a compreensibilidade dita normal. Tristezas muito profundas, que comprometem a cognição, a motricidade e a vontade, bem como estados eufóricos e de ativação psicomotora, que levem a comportamentos danosos ao indivíduo ou ao meio em que ele está, podem ser considerados patológicos e, portanto, fazerem parte do quadro bipolar. Mesmo quadros menos conspícuos, de ambos os pólos, podem configurar um dos inúmeros subtipos reconhecidos da doença. Há casos, por exemplo, de depressão de difícil tratamento por ser exatamente bipolar. O outro pólo, geralmente, passa despercebido, por não chamar a atenção, sendo vivenciado pelo indivíduo como um estado de extraordinário bem-estar e vitalidade.

Boa Vida Online – Existem causas específicas?

Dr. Luiz Antônio Paiva – Não há causas específicas para a doença, exceto fatores desencadeantes conhecidos e fatores genéticos, com inequívoco peso na tendência a se ter o transtorno bipolar. Há grupos de risco, que são aqueles com patrimônio genético predisposto à doença, isto é, pessoas que possuem casos na família, como pais, tios e avós portadores do Transtorno Bipolar.

Boa Vida Online – Qual o melhor tratamento?

Dr. Luiz Antônio Paiva – O melhor tratamento inclui, em todos os casos, a presença de estabilizadores do humor, considerados imprescindíveis, acrescidos, ou não, de um antidepressivo, de um antipsicótico, ou de ambos. Visando uma cobertura às escapadas eventuais, para mais ou para menos, do humor da pessoa.

Boa Vida Online – Como deve ser o acompanhamento psiquiátrico nesses casos?

Dr. Luiz Antônio Paiva – O acompanhamento psiquiátrico deve ser estrito e com um único profissional, para se evitar reinícios dispendiosos e que favorecem uma baixa adesão ao tratamento. Uma vez iniciado o tratamento, o profissional buscará uma sintonia fina com aspectos da doença do paciente, fazendo necessários ajustes na dose ou nos próprios medicamentos. Uma psicoeducação do paciente e de seus familiares também é essencial, visando o reconhecimento de sintomas prodrômicos de uma crise ou de outros fatores que compõem a doença.

Boa Vida Online – É possível curar a bipolaridade?

Dr. Luiz Antônio Paiva – Não há cura no sentido estrito, com o desaparecimento da doença. Entretanto, há uma cura em lato senso, ao se evitar as crises e outras manifestações do transtorno.

Boa Vida Online – A bipolaridade pode ser o início de outras doenças?

Dr. Luiz Antônio Paiva – Genericamente, podemos dizer que não, não é um estágio para outros transtornos mentais. Entretanto, há enfermidades que chamamos de comorbidades, pois ocorrem simultaneamente com a bipolaridade. Há também doenças físicas, que ocorrem no decorrer da vigência do transtorno e que consideramos estarem associadas, pela frequência estatística de sua associação com a doença, tais como obesidade, síndrome metabólica, diabetes e doenças cardiovasculares.

Boa Vida Online – Fique à vontade para falar sobre a doença ou alertar a população sobre o tema: 

Dr. Luiz Antônio Paiva – Por ser um quadro complexo, de difícil compreensão pelo leigo, o Transtorno Bipolar do Humor tem-se revestido de uma aura mítica com inúmeros equívocos. O que tem levado a diagnósticos errôneos é o fato de, muitas vezes, aparecer somente o lado depressivo do problema, passando ao largo os episódios, às vezes fugazes, de hipomania ou exaltação do humor, por não ultrapassarem a fronteira do bizarro e do compreensível. Por vezes, é vivenciado pelo indivíduo como um bem-estar pleno, cheio de energia, que compensa o outro polo de depressão, falta de energia, tristeza e fuga ao prazer. A depressão nestes estados é de difícil manejo, exigindo diagnóstico certeiro da condição para sua abordagem eficaz. Fora estes aspectos, o Transtorno Bipolar do Humor deve ser encarado com respeito, mas sem preconceitos, pois mesmo em suas manifestações mais graves, de psicose franca, com delírios e alucinações, pode ser considerado benigno e perfeitamente tratável, de manifestação episódica e perfeitamente prevenível.

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